2008-05-28 10:43:00
Pequeno e fatal, o cigarro está cada vez menos presente na vida dos brasileiros. Segundo dados do Ministério da Saúde, entre 1989 e 2004, o consumo per capita de cigarros no País caiu 32% e a prevalência de fumantes com mais de 15 anos diminuiu neste período, passando de 32% para 17%.
Na tentativa de reduzir o consumo do tabaco, o Ministério da Saúde mostra imagens cada vez mais chocantes sobre os efeitos das muitas substâncias contidas no cigarro. Parte dessas imagens foi lançada hoje em alusão ao Dia Mundial Sem Tabaco, que acontece dia 31. Elas mostram órgãos expostos e até um feto.
Para muitas pessoas que abandonaram o hábito de fumar, a estampa em um maço de cigarros não foi o suficiente, elas precisaram sentir na pele e em todo o corpo os malefícios do tabaco.
A fisioterapeuta Geovana Bigaton Sabadotto, 23 anos, está entre elas. Foram quatro anos como tabagista e um desfecho quase trágico para a jovem, que deixou de fumar aos 18 anos, seis meses antes de ter uma Trombose Venosa Profunda.
Geovana foi vítima de uma combinação letal para mulheres: cigarro e anticoncepcionais. Em tratamento de ovários policísticos, a fisioterapeuta usava contraceptivos sob indicação médica e também por avaliação clínica foi obrigada a deixar o fumo, que a acompanhava desde os 14 anos. “Minha ginecologista disse: ou fumava, ou usava anticoncepcional”.
Com uma rara pré-disposição genética à trombose, Geovana sofreu da doença seis meses depois. Em uma semana, viu a perna direita inchar ao ponto de não servir mais na calça jeans, enquanto o lado direito não apresentava alterações. Ela ainda teve falta de ar e enjôos, o que levou os médicos a suspeitarem de uma apendicite aguda.
Após o diagnóstico de trombose, que deixou a perna direita quase sem circulação, Geovana ainda passou quatro dias internada, mas reconhece que acha a fumaça do cigarro cheirosa. Ela explica que para quem já fumou, a dependência é psíquica e física. “Eu sentia muita dor de cabeça pela abstinência da nicotina”. Hoje, revela que chega sentir vontade, em especial quanto ingere alguma bebida alcoólica.
Luta – E é a bebida o gatilho evitado pelo assessor de planejamento da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) Rafael Fontes Fernandes, 33 anos, uma tentação para voltar a fumar. O hábito ele tinha desde os 15 anos e há dois parou após passar por um tratamento que procurou no próprio local de trabalho.
Ele já sentia dificuldades para manter a rotina de exercícios físicos e pela cobrança em fumar. “Não conseguia dormir se não tivesse certeza que havia um maço de cigarros para fumar ela manhã, ou quando acordasse à noite”.
Fernandes procurou o órgão, que o encaminhou para um programa onde teve auxílio psicológico e medicamentoso. Após o tratamento, confessa que redescobriu sensações antes amenizadas pela nicotina, como gostos, cheiros e disposição física. “O cigarro tem um cheiro forte e quem fuma não sente”, conta.
Mui amigo – Tanto o assessor, como a fisioterapeuta contam que foram “apresentados” ao cigarro por amigos. “Queria fazer graça”, diz ele. “Para mim, o tabaco era um escape emocional”, confessa ela. Ambos explicam que foi fácil dar espaço ao cigarro, mas foi difícil assumir que estavam viciados. “Você pensa que controla”, diz Fernandes. Pessoas como eles, que começaram jovens, são alvo da campanha deste ano do Ministério da Saúde diante do direcionamento da indústria tabagista para atrair esse público.
O programa que auxiliou o assessor é aplicado desde 2001 pela Funasa por uma comissão de apoio ao tabagista. Segundo a assistente social do órgão, Denise Soares da Silva, desde 2001, 13 dos 70 fumantes identificados largaram o cigarro. A assistente social enfatiza que eles são alvos de abordagem educativa, sem perseguição. “O fumante sabe os malefícios do cigarro, mas procuramos mostrar a preocupação com a saúde dele”.
Denise Soares revela, ainda, que por meio do SUS (Sistema Único de Saúde) é possível receber tratamento médico e medicamentoso. Hoje, o cigarro mata 200 mil pessoas no Brasil, de acordo com o Inca (Instituto Nacional do Câncer). Conforme estimativa do órgão, a taxa de câncer de traquéia, pulmão e brônquio em homens é de 22,53 para cada grupo de cem mil habitantes em 2008. Para mulheres, a taxa chega a 11,7 para cada cem mil pessoas.