2008-01-08 20:43:00
O costume de se colocar “água no feijão” nunca esteve tão em voga como nos dias atuais, graças à disparada do preço do produto. Se no início de 2007 era possível encontrar o quilo sendo vendido a até R$ 1, o consumidor viu nos últimos dois meses o preço do feijão bater na casa dos R$ 7. A escalada no valor é fruto da lei da oferta e da procura, que atingiu em cheio o prato – e o bolso – do brasileiro.
“O preço baixo desestimulou o produtor em safras anteriores, e ele se desinteressou pela cultura. Praticamente só a agricultura familiar manteve o plantio do feijão no País”, afirmou Nilson Azevedo Marques, gerente de Operações e superintendente substituto da Companhia Nacional de Abastecimento em Mato Grosso do Sul. Com pouca gente plantando, inclusive nos grandes centros de produção do produto – como Rondônia, Bahia, Santa Catarina e Paraná – era de se esperar que o preço subisse com o passar do tempo. Porém, a forma com a qual o produto “sumiu” do mercado espantou o superintendente.
“De repente, o preço saltou de R$ 1 para R$ 2, chegou a R$ 3 e logo passou dos R$ 6. Não houve sequer tempo para o valor aumentar paulatinamente”, explicou Marques. Aliada à migração de produtores, outros fatores influenciaram a alta do preço, como a estiagem em algumas regiões produtoras. Marques também ressaltou um aspecto do feijão: sua “vida útil comercial”. “É uma cultura sazonal, que não dá para se guardar no estoque. Embora ele chegue a durar até três anos, em seis meses já está velho, difícil de cozinhar, e pouco atraente para o consumidor”.
No prato – Alheio às especificidades da cultura e do mercado, o consumidor teve se de adaptar como pôde ao novo preço. “Daqui a pouco a gente vai ter de importar o feijão”, brinca a dona de casa Dinéia Fatinatto, que cortou um quilo dos quatro comprados mensalmente do produto.
“A gente procurou alternativas, como fazer galinhada e macarronada. Só não uso soja porque não conheço como fazer”, explicou, embora admita que não dá para abandonar esse hábito de consumo. “Brasileiro come tipicamente arroz e feijão. Por mais que a gente substitua, o pessoal em casa estranha”, conta.
A opinião é similar à da também dona de casa Fátima Barcelos. No seu caso, a opção foi trocar parte do feijão tradicional pelo tipo preto. “O carioquinha era muito mais barato. Agora é o preto que ficou mais em conta. Então a gente compra um pouco de cada. O que não pode é ficar sem o feijão”, destacou. A alternativa encontrada foi procurar pelos mercados da cidade quem ofereça o produto com o preço mais baixo.
O problema é que até para o varejista o preço está mais salgado. “É a primeira vez que vejo esse tipo de disparada no preço de uma mercadoria”, afirmou o gerente do supermercado Arapongas, Ovídio Falavigna. “Mas é cesta básica do trabalhador, não pode faltar na mesa. Então o pessoal tem optado por outros alimentos”, prosseguiu, apontando para dois espaços distintos em uma prateleira.
De um lado, quilos de feijão carioquinha aguardando consumidores, com preço acima de R$ 6. Do outro, o espaço que era ocupado pelo feijão preto, que sumiu do estoque por ser mais barato. “Temos trabalhado muito com o feijão preto, que não mexeu o preço”, justificou Falavigna.
O também supermercadista Luiz Fernandes afirmou que o alto preço desestimulou a procura em seu estabelecimento. Seu pequeno mercado antes comercializava cerca de cinco fardos de feijão por mês. “Hoje a gente compra só para dizer que tem. Ninguém mais compra por causa do preço. É normal: toda vez que aumenta o preço cai a venda. Não dá para fugir disso”, lamentou.
Alternativas – Como sugeriram as donas de casa entrevistadas pelo Campo Grande News, diante do preço alto a alternativa é variar. A nutricionista Fernanda Buainain Abuhassan afirma que o feijão preto e outras leguminosas ricas em fibras vegetais e ferro são bons substitutos. “O grão de bico, a lentilha e a ervilha fresca podem ocupar o lugar do feijão. Todas possuem boas quantidades de proteínas vegetais, fibra e ferro”, sugeriu.
Doutrinar o apetite pode ser uma alternativa, pelo menos até que os estoques do produto se normalizem e forcem a baixa. Nilson Marques projeta que os preços devem cair no País nos próximos meses, também graças à lei da oferta. “O feijão está em alta, quem colher primeiro e vender logo vai ter um bom lucro. Com o preço do quilo a R$ 6, vale a pena plantar em qualquer lugar, porque vai compensar custos como o frete”, crê o superintendente da Conab, ao lembrar que no Estado – que normalmente planta para cobrir sua demanda – a cultura só é desenvolvida na safra de inverno.