2008-09-25 20:10:00
Em um posto de gasolina de Rochedo, a 75 km de Campo Grande, funcionário explica onde fica o Projeto Portal, do polêmico Urandir Fernandes de Oliveira, que após os ataques que sofreu na mídia, procurou resguardar-se da exposição desfavorável para realizar seu projeto mais ambicioso: a construção de uma cidadela esotérica para enfrentar o apocalipse, esperado para 2012.
"Não têm nenhuma placa, mas a entrada é logo ali depois da ponte, à esquerda. Tem um rapaz aqui que está esperando carona para ir para perto de lá", diz o frentista.
Em uma conversa de poucas palavras, durante o trajeto por uma estrada não pavimentada de cerca de 40 quilômetros, Antônio, o vizinho quilombola de Urandir, revela a admiração pelo projeto e por seu idealizador.
"Você conhece o loteamento? É muito bonito, as casas redondinhas. Vai virar uma cidade aquilo lá, porque vem muita gente visitar o projeto, e o Urandir já curou muita gente aqui. O pessoal da nossa comunidade não se mistura muito, mas sempre tem pessoas que vão trabalhar nas construções, meu cunhado já trabalha com as obras lá há oito anos."
No caminho, passamos por tratores e uma retro-escavadeira da prefeitura de Rochedo que tentavam domesticar um trecho da estrada difícil.
"Quando chove é pior, tem lugar que não dá para passar, mas se secar um pouquinho já fica bom de novo", diz Antônio, que cumprimenta um motorista que vem em sentido contrário em um caminhão com adesivos de uma candidata a vereadora. "É o caminhão do projeto, deve estar indo buscar material de construção em Rochedo, a sobrinha do Urandir é candidata à vereadora em Rochedo".
Antônio se despede algumas centenas de metros antes da entrada do Projeto Portal. A portaria vazia naquele momento, o porteiro saíra há pouco com sua moto, permite acesso ao pequeno vilarejo onde se hospedam os turistas que visitam o projeto, e que permanece quase vazio no intervalo dos eventos.
Ao lado das casas há um salão para palestras, um conjunto de alojamentos, e uma recepção com placa de boas vindas em seis línguas. Em algumas paredes se vêem grafites de ETs pintados com tinta prateada.
"O loteamento fica lá em cima no morro, a uns três quilômetros daqui", informa um rapaz que trabalha na manutenção de uma das casas.
Dali em diante, as máquinas do projeto abriram ladeira acima, no meio da mata, uma estrada que leva a um platô cercado por morros da Serra de Maracajú, e de onde se podem ver doze casas, e algumas novas construções que começam a ser erguidas.
Em um dos morros, os adeptos das toerias de Urandir, que misturam neurolinguistica, discos voadores, profecias bíblicas, paranormalidade, afirmam ver a imagem de um grande rosto de Cristo esculpido na rocha. O rosto seria um "portal" por onde passariam "pequenas naves" de uma dimensão à outra.
Loteamento – Carolina Eichhorn, do núcleo do Projeto Portal em São Paulo, informa que os lotes, que tem metragem de 288m² (12x24m), custam R$ 5.985,00. Mas a vendas estão fechadas até o ano que vem, porque cem unidades já foram vendidas e já se iniciaram as construções, que são realizadas com exclusividade pelo Projeto Portal.As casas seguem padrões estabelecidos, o modelo mais barato custa cerca de R$ 40.000,00. Os modelos mais sofisticados podem ultrapassar R$ 200.000.
Todos eles porém têm características comuns. A espessura das paredes, com quatro camadas de tijolo, o formato arredondado, alojamentos e ligações subterrâneas até uma central que será construída na cidade. Medidas de segurança para enfrentar os cataclismos em 2012.
As paredes e tetos arredondados permitirão que as casas se mantenham intactas durante ventos de mais de 200 km/h. A altitude permitirá que alguns eleitos se salvem das inundações que devem deixar boa parte do mundo debaixo d’água.
“Tem gente do litoral que já construiu casa aqui, um casal de Santos”, diz um dos trabalhadores, que preferiu não se identificar, apontando para um dos modelos mais caros construídos no loteamento. “É um advogado, fez casa desse tamanho só para ele e para a mulher”, diz.
Em outra casa, no modelo mais barato, uma senhora de cerca de 60 anos trabalha para pôr ordem na casa nova. Um pedreiro passa uma camada impermeabilizante de piche sobre o telhado feito de tijolos, enquanto ela busca água para pequena horta que plantou em frente a casa, em um carrinho de mão.
“Já tem seis meses que está sem água na casa, ainda falta colocar a tubulação. Mas temos água de sobra aqui, são três poços artesianos, água suficiente para uma cidade”, diz a senhora, enquanto molha as plantas com um balde.
Depois da faina do trabalho na pequena construção, a senhora reclama que desde que a antena parabólica foi tirada do teto e colocada no chão, “foi orientação dele”, diz enfática sobre a recomendação de Urandir, as novelas saíram do ar.
Pequenos incômodos, que são enfrentados com boa vontade por quem espera se salvar do fim do mundo no Projeto Portal.
Passado – Urandir ficou famoso nacionalmente garantindo que vê extraterrestres desde os 13 anos e propagando ter o dom da cura.
Pedreiros que trabalham no Projeto Portal contam que na casa dele existe um “buraco” no teto, preservado como marca do dia em que um disco voador passou pelo local.
Em 98 o ufólogo Ademar Gevaerd acusou Urandir de simular a aparição de OVINIs com projeções de luz de objetos como uma caneta a laser, e fez demonstrações de "fenômenos" similares.






