Foram anos marcados por uma rotina intensa de tratamento, viagens e incertezas. Diagnosticado em 13 de março de 2009 com nefropatia por IgA, conhecida como doença de Berger, Anderson iniciou em 6 de abril do mesmo ano, as sessões de hemodiálise, um processo contínuo que se estendeu por 16 anos e 8 meses.
Uma rotina de resistência e esperança
Ao longo desse período, Anderson passou por diferentes centros de tratamento em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná, sempre em busca de um transplante. Foram diversas convocações ao longo dos anos, muitas delas sem sucesso devido à incompatibilidade. “A gente vive esperando o telefone tocar. Pode ser a qualquer hora, de madrugada, durante o almoço. Isso mexe com o psicológico, com o sono, com tudo”, relata.
Mesmo diante das dificuldades, ele seguiu trabalhando como investigador da Polícia Civil, função que exerce desde 2006. “Sempre tive apoio dos meus colegas e da instituição. Isso fez toda a diferença para eu continuar firme durante esse processo”, afirma.
A 13ª tentativa e o momento da virada
A espera terminou após acompanhamento no Hospital do Rocio, em Campo Largo-PR, onde Anderson permaneceu por cerca de dois anos e meio. Após 12 tentativas frustradas, foi na 13ª convocação que veio a notícia esperada.
“Quando deu certo, foi como ganhar uma nova vida. Foram muitos anos tentando, vendo outras pessoas conseguirem e eu tendo que recomeçar. É uma sensação que não dá para descrever”, conta. A convocação aconteceu na madrugada de 13 de outubro do ano passado, exigindo rapidez na mobilização para o deslocamento até o hospital.
Agilidade no deslocamento foi essencial
Para que o transplante fosse possível, o tempo de resposta foi determinante. Ao longo da jornada, Anderson contou com diferentes formas de deslocamento, incluindo apoio aéreo em momentos anteriores, viabilizado pelo Governo do Estado.
“Quando o chamado acontece, não tem como esperar. É tudo muito rápido. Sem esse tipo de apoio, muita gente não consegue chegar a tempo”, explica.
Ele destaca o trabalho das equipes envolvidas nesse processo. “São verdadeiros anjos. A Casa Militar, os pilotos, as equipes… todos sempre prontos para ajudar. Isso salva vidas”, afirma.
Bastidores do transporte: precisão, desafio e missão de salvar vidas
Por trás da chegada a tempo para o transplante, há uma operação complexa que envolve planejamento, agilidade e decisões tomadas em questão de minutos. O piloto da Casa Militar, Enilton Zalla, delegado da Polícia Civil, que atualmente atua na aviação do Estado, participou diretamente do transporte de Anderson e relembra que o caso exigiu rapidez e enfrentou condições desafiadoras.
Segundo ele, essa não foi a primeira vez que acompanhou a trajetória do investigador. Ao longo dos anos, Enilton participou de outras tentativas de deslocamento de Anderson para Curitiba, ainda sem sucesso na compatibilidade para o transplante. A proximidade entre os dois também é institucional: ambos são policiais civis, o que fez com que o caso fosse acompanhado com atenção especial.
“Era um voo que precisava sair e chegar muito cedo em Curitiba. A gente ainda tinha uma condição de meteorologia que poderia dificultar o pouso, mas assumimos o compromisso e partimos para o desafio”, relata.

O deslocamento ocorreu durante a madrugada, logo após o piloto retornar de outra missão, evidenciando a dinâmica intensa da rotina das equipes. Mesmo diante das incertezas, o planejamento e a execução foram bem-sucedidos, garantindo que Anderson chegasse a tempo para o procedimento.
“Para nós foi uma felicidade muito grande. A gente participa de muitas histórias como essa, e poder ver quando dá certo, principalmente com alguém que a gente tem proximidade, é um privilégio enorme”, afirma Enilton.
Ele explica que a atuação da equipe faz parte de uma engrenagem maior, organizada de forma integrada entre a SES (Secretaria de Estado de Saúde), a Casa Militar e a CTA (Coordenadoria de Transporte Aéreo). Atualmente, o grupo conta com sete pilotos, entre comandantes, como é o caso dele e copilotos, além do apoio de profissionais de outras forças, como bombeiros e Polícia Federal, que colaboram conforme a demanda.
As missões envolvem tanto o transporte de pacientes quanto a captação de órgãos, sempre com foco no tempo-resposta. A atuação ocorre em regime rotativo e é acionada conforme a necessidade da Secretaria de Saúde, com coordenação também da Secretaria de Governo.
“Quando a demanda surge, a gente avalia rapidamente as condições e, sendo possível, já inicia o voo. É um trabalho que exige precisão e agilidade, porque cada minuto faz diferença”, explica.
Com experiência acumulada desde 2019 nesse tipo de operação, período em que também atuou em missões pelo Corpo de Bombeiros, Enilton ressalta que, embora existam casos em que o desfecho não é o esperado, a maioria das missões resulta em vidas salvas, o que reforça o propósito do trabalho.
“São dezenas de histórias. A grande maioria é de sucesso, e poder fazer parte disso é algo que a gente leva para a vida inteira”, completa.
Entre o medo e a realização
Ao chegar ao hospital, o sentimento de Anderson era uma mistura de ansiedade e apreensão. “A gente sonha com esse momento, mas também sente medo. É uma cirurgia grande, uma mudança de vida”, relata.
Segundo ele, o acolhimento da equipe foi fundamental. “Fui muito bem recebido. A equipe já estava preparada, aguardando. Tudo precisa ser rápido para garantir que o órgão seja transplantado com sucesso”, explica. O transplante foi realizado no dia 14 de outubro, um dia depois da ligação de convocação.
Nova vida e gratidão

Hoje, já transplantado, ele resume o momento com gratidão. “Estou vivendo uma nova vida. Sou muito grato a todos que fizeram parte dessa trajetória”, afirma.
Ele também destaca o papel da família, da esposa Simeide, dos filhos Ana Lívia e José Pedro, da mãe Luzinete e especialmente do pai, Adão Ribeiro, também policial militar, mas já aposentado, que o acompanhou durante toda a jornada de tratamento.
Transplantes avançam com apoio logístico e integração entre instituições
A história de Anderson reflete os avanços na área de transplantes em Mato Grosso do Sul, impulsionados pela integração entre saúde e logística e pelo suporte estratégico do Governo do Estado.
A SES atua de forma articulada com a Casa Militar, a CTA e a SEGOV (Secretaria de Estado de Governo e Gestão Estratégica), garantindo agilidade no transporte de equipes e órgãos, especialmente por via aérea, fator determinante para ampliar o número de procedimentos e salvar vidas.
Por meio dessa atuação conjunta, o Estado mantém uma estrutura preparada para atender demandas em qualquer dia e horário, dentro e fora de Mato Grosso do Sul. Desde 2023, já foram realizadas 39 missões aéreas para captação e transporte de órgãos, sendo 19 apenas no último ano.
A coordenadora da CET (Central Estadual de Transplantes), Claire Miozzo, ressalta a importância da agilidade no processo. “Quando conseguimos reduzir o tempo entre a captação e o transplante, aumentamos significativamente as chances de sucesso. Essa integração tem salvado vidas”, afirma.
O cirurgião responsável pelo programa de transplantes no Estado, Gustavo Rapassi, também destaca o impacto direto do suporte logístico, especialmente diante das longas distâncias. “Os pacientes que aguardam estão, muitas vezes, em situação de vida ou morte. Quando conseguimos reduzir o tempo de transporte, aumentamos a chance de que esse órgão realmente chegue e seja aproveitado”, explica.
Segundo ele, o transporte aéreo é decisivo para viabilizar os procedimentos. “Sem essa estrutura, muitos órgãos não conseguiriam ser utilizados a tempo. Isso faz toda a diferença para quem está na fila”, completa.
Fonte: André Lima, Comunicação SES









