17.5 C
Amambai
sexta-feira, 19 de junho de 2026

Periscópio`Deu no New York Times´por Antonio Luiz

2008-11-21 14:50:00

“Deu no New York Times”
Vocês se lembram daquele episódio em que um correspondente americano publicou uma matéria a respeito do hábito que o presidente da República, senhor Luiz Inácio Lula da Silva, tem de ingerir grandes quantidades de bebidas alcoólicas? O Lula ficou tão possesso com a reportagem, por sinal verdadeira, que tentou expulsar o repórter do país, numa medida inconstitucional – até porque ele é casado com uma brasileira – e arbitrária, própria dos anos da ditadura militar. O nome do jornalista é Larry Rohter e ele trabalhava como correspondente no Brasil para o New York Times, o jornal mais importante do planeta.

Atualmente, Rohter está vivendo em Nova York e acaba – há cerca de duas semanas – de lançar um livro sobre o Brasil, onde viveu por vários anos. O título é “Deu No New York Times – O Brasil Segundo a Ótica de um Repórter do Jornal Mais Influente do Mundo”.

Na edição do Manhattan Connection  no canal GloboNews  de domingo passado, Rohter participou da mesa e num português correto e quase sem sotaque, explicou a matéria que tornou-se a principal – indesejada, segundo ele – da sua vida.

Sabedor de que sou “vidrado” nesse tipo de leitura, meu irmão, que mora em São Paulo, imediatamente comprou e mandou-me o livro. Comecei a ler e fui direto ao capítulo intitulado “Lula e Eu”, onde o escritor narra sua trajetória junto ao presidente desde que esse era apenas um “sapo barbudo”, segundo o Brizola e comandava as greves no ABC paulista. Por ocasião da famosa reportagem, Lula afirmou que jamais tivera contato com o correspondente estrangeiro. Era mentira e chegaram até a tomar umas “cachacinhas” juntos, com o umbigo no balcão dos botecos da vida, inclusive com matérias comprovando esses fatos. Palavras do presidente ao saber da matéria: “ Fiquei p…porque como pode um cidadão que nunca conversou comigo, que nunca tomou um copo de cerveja comigo, fazer uma matéria dizendo que eu bebia? Isso me deixou muito p…”. Ainda irritado, Lula emendou: “Que se f…a Constituição. Quero que ele vá embora daqui!”. Como se sabe e sempre se soube, de nada adiantou o esperneio presidencial, pois além de não haver meio jurídico ou constitucional para a expulsão do jornalista, até a imprensa “chapa branca” saiu em defesa do jornalista, numa clara demonstração de corporativismo, pois ela mesma sentira até onde poderiam chegar as arbitrariedades do presidente com a assessoria de petistas completamente despreparados para governar o país. Por qualquer ângulo que se olhasse a questão, o governo perderia nos tribunais. O jornal americano tem como procedimento normal em casos controversos, oferecer um espaço na forma de “carta ao editor”, já que o repórter e o jornal defendiam a matéria publicada.

Para “lavar a honra” do presidente, foi finalizado um acordo em que o jornal não recuou um milímetro, mas saudou o fim do impasse. Como a fraqueza do presidente e do governo ficou evidente, o ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, que, como servidor público, deveria defender os interesses do povo brasileiro e não do governo, quebrou o acordo e divulgou, antes do prazo estabelecido, que Larry Rohter havia se “retratado”, medida que o repórter sempre negou peremptoriamente e continua negando.

Na sua análise, Rohter admite que o presidente tenha ficado bravo com a matéria e realmente tentou expulsá-lo do Brasil. Mas, segundo ele, esse não foi o principal motivo e, sim, vários outros.  Uma das razões foi a investigação que o repórter fazia sobre o assassinato do prefeito de Santo André, em janeiro de 2002 e até então não esclarecido. Realmente, é um enigma que a polícia ainda não tenha elucidado esse caso ou, na pior das hipóteses, tenha abafado por ordem de dirigentes petistas. Outra coisa que incomodou os petistas foi a descoberta de um esquema montado nas prefeituras administradas pelo PT para desviar dinheiro para o caixa dois da campanha presidencial, além de muitas outras falcatruas.

Acho que, meio desiludido, o americano encerra o capítulo afirmando que em termos morais e éticos, o Brasil não avançou, graças à convicção do PT de que o fim justifica os meio e que ele, ainda que de um modo muito pequeno e breve, tenha sido vítima disso.

Como sabemos, vivemos uma época de mentiras e bravatas.

Leia também

Edição Digital

Jornal A Gazeta – Edição de 19 de junho de 2026

Clique aqui para acessar a edição digital do Jornal...

Enquete