2008-11-01 21:29:00
Depois de um longo período de silêncio, o administrador regional da FUNAI em Mato Grosso do Sul, Claudionor do Carmo Miranda, decidiu falar sobre o embate envolvendo o órgão, os ruralistas e o governo do Estado. Em entrevista exclusiva ao Campo Grande News, disse que por trás de tanta polêmica está um único interesse: a instalação de usinas de álcool, justamente nas regiões onde os estudos serão realizados.
“Por isso o desespero. Se você pegar o mapa de onde se pretende implantar as usinas, e o de onde os estudos estão sendo feitos, você percebe que a área é exatamente a mesma. É lógico que há interesse econômico nisso tudo”.
Na região, estão em andamento 43 projetos para instalação de usinas e canaviais, segundo a Funai. Outro risco das demarcações também seria afugentar investidores internacionais, argumenta o órgão.
De acordo com Miranda, o discurso tem ficado somente no debate econômico e não se fala sobre a diversidade cultural ou na necessidade de sobrevivência das etnias. “Sem os povos indígenas Mato Grosso do Sul vai perder parte de sua identidade, parte de sua história, e renegar aquele que também ajudou a fazer do Estado o que ele é hoje.”
Claudionor lamentou que o governador André Puccinelli, segundo ele, tenha faltado com o respeito com a população indígena do Estado. “O governador tem falado que a comunidade indígena não faz falta. Nossa comunidade repudia ser tratada como está sendo”, diz Miranda.
Ele também critica o deputado federal Waldir Neves, que recentemente disse que vai propor a extinção da Funai. “O fim da Funai significa a extinção dos povos indígenas no Brasil”.
O administrador considera a idéia de Neves, que propõe que os municípios fiquem com a responsabilidade de cuidar dos índios, é completamente equivocada. “O município não tem pessoal treinado para trabalhar com índio, não tem orçamento. Esta proposta mostra a falta de conhecimento sobre o assunto. Como colocar os índios aos cuidados dos municípios se tem prefeitos que é contra a presença indígena?”, questiona.
Desde que as vistorias começaram em 26 municípios do Estado, a classe produtora, representada principalmente pela Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), tem se levantado contra os estudos, e já conseguiu que as inspeções parassem até que uma instrução normativa fosse editada.
Os produtores dizem que as vistorias continuam, mesmo depois do acordo firmado entre o presidente da Funai, Márcio Meira, e o governador. “Isso não é verdade. Tem fazendeiro que vê um antropólogo trabalhando dentro da aldeia, ou ao redor, e diz que a Funai quebrou o acordo. Nós temos muitas outras atribuições, e os antropólogos que são vistos estão levando adiante outros projetos que temos”, garante.
Miséria – Questionado sobre a atuação da Funai na solução dos principais problemas que assolam o índio no Estado, tais como: alcoolismo, desnutrição, depressão, suicídios, miséria, Miranda não nega que eles existam. Diz que a Funai tenta solucionar a todos. “Mas o início da solução passa, obrigatoriamente, pela demarcação de terras”.
Conforme ele, a uma situação é extremamente precária em muitas aldeias. Onde índios são “confinados” em espaços insuficientes para seu sustento. “Tem família vivendo com menos de meio hectare. Há barraco de índio que metade fica na aldeia e a outra metade fora. Daí ele sai da aldeia, vê a vida do homem branco e não entende porque vive em tanta miséria. O resultado, alcoolismo, depressão e até suicídio”.
Propostas – Miranda ressalta que os povos indígenas não querem as terras de fazendeiros e que podem viver pacificamente. Para evitar o conflito ele propõe uma alternativa, com foi feito no Rio Grande do Sul, onde fazendeiros foram indenizados pela desapropriação.
Mas aqui em Mato Grosso do Sul, antes mesmo de qualquer desapropriação, o Ministério Público já se levantou dizendo que entrará com uma ação civil pública, caso isso aconteça, pois o pagamento da terra nua para fim de devolução a povo indígena é inconstitucional, já que terra de aldeia é terra da União.
Mesmo com tantas brigas e problemas pela frente Miranda é otimista e vê os povos indígenas em um lugar de destaque na sociedade sul-mato-grossense. Ele conta que a Funai tem desenvolvido projetos de etnodesenvolvimento, nos quais a agricultura, o artesanato o acesso às universidades são priorizados. “Assim vamos consolidar o valor indígena para contribuir ainda mais para o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul”, finaliza.
No mapa, a parte em vermelho integra os 26 municípios onde estão algumas áreas passíveis de demarcação.










