2008-10-22 11:19:00
O Hospital Regional de Ponta Porã está se transformando num núcleo de socorro para mulheres que cometem aborto provocado. Pelo menos é o que se pode concluir depois de ouvir as declarações da médica Conceição Escobar, que chegou a ser acusada por pacientes de não dar a devida atenção às parturientes internadas na maternidade do HR.
Depois de receber, ontem à tarde, uma reclamação de que as mulheres internadas na maternidade do Hospital Regional José de Simone Neto não estariam recebendo atendimento adequado e que uma delas inclusive precisaria de uma curetagem urgente em virtude de uma hemorragia, a reportagem foi verificar os fatos.
No hospital, o quadro é completamente diferente. Confirmou-se que todas as pessoas internadas vinham recebendo bom tratamento, mas descobriu-se uma situação que é, no mínimo, alarmante: com a facilidade de adquirir o medicamento Cytotec em Pedro Juan Caballero, o HR tem sido utilizado como pronto socorro abortivo.
Mulheres vindas de Maracaju, Jardim, Dourados, Campo Grande, e até de outros estados, sem contar as que residem em Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, tomam o medicamento com a finalidade de provocar o aborto.
A doutora Conceição Escobar explicou que o medicamento, recomendado para problemas estomacais como úlcera, gastrite e outras complicações, tem o poder de causar o aborto nas primeiras semanas de gestação, o que é uma prática perigosa e que pode colocar em risco a vida da gestante.
A mulher toma um comprimido e introduz outro na vagina. Em alguns casos o feto vem a óbito, mas quase sempre provoca hemorragia. Quando o feto não morre as complicações podem ser ainda maiores, tanto para a mulher como para o bebê, que pode nascer com anomalias.
Acreditando que o feto já morreu, estas mulheres dirigem-se ao Hospital Regional e solicitam uma curetagem. Nos casos de comprovação do aborto, cuja causa – mesmo tendo sido provocada pelo Cytotec – não pode ser comprovada, o HR faz o procedimento.
O número é assustador. Segundo a médica, uma média entre 3 a 5 curetagens são feitas diariamente, o que pode corresponder a até 150 abortos por mês, lógico que há exceções.
Entretanto, quando a mulher é submetida a um ultrassom – e isso, diz a doutora é aplicado em todos os casos – e o procedimento acusa que o feto ainda está vivo, o atendente inicia um tratamento para que o bebê sobreviva, mesmo contra a vontade da mãe.
Isso, ainda segundo a médica, faz com que as mulheres fiquem contrariadas, nervosas e, em alguns casos, até com ataques de histeria, o que é motivo suficiente para que parentes ou acompanhantes procurem a imprensa para reclamar do atendimento. Na verdade, o problema é muito maior e requer imediata intervenção das autoridades ligadas ao setor da Saúde.
Há quem veja, inclusive, a necessidade de se abrir uma discussão com as autoridades paraguaias, para imprimir um controle mais rígido sobre a comercialização do Cytotec na divisa com o Brasil.
ANÚNCIOS
Enquanto no Brasil a comercialização do Cytotec é proibida, em outros países, como na República Domincana, chega a surpreender a publicação de anúncios na Internet. Um deles, encontrado ontem pela reportagem, cujo endereço não será divulgado justamente para não promover a venda do medicamento, trazia uma foto de uma mulher grávida, com o seguinte texto: “No lo quieres, te ayudo. Vendo pastilhas abortivas Cytotec”, o que significa em Português: “Se não o queres [bebê], te ajudo. Vendo comprimidos abortivos Cytotec”.
O anúncio, divulgado pelo Evisos desde o dia 26 de setembro último, chega a ser ainda mais abusivo para os padrões brasileiros e conta uma estória triste dos problemas familiares que um filho não planejado poderia provocar. Depois de assegurar que “eles” se tratam de profissionais “gabaritados”, os próprios anunciantes aconselham o tratamento feito com Cytotec, do laboratório Pfizer, com 200 mcg, tendo como princípio ativo o Misoprostol.
No Paraguai, mesmo que o comércio do medicamento seja liberado, a reportagem não chegou a encontrar algum anúncio na Internet. Mas, para surpresa, antes de encerrar o material, fez-se uma consulta sobre a venda do produto no Brasil, onde se sabe que é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), descobrindo-se que até no Brasil há propaganda semelhante.
A reportagem do JP tentou ontem manter contato com a Polícia Federal em Ponta Porã sobre o procedimento daquela autoridade com relação à venda do Cytotec em território brasileiro. Mas, às 18h20min o expediente já havia sido encerrado e não havia ninguém para falar sobre o assunto, segundo o plantão.










