2007-10-19 13:19:00
O Indignado e o Imbecil – Não sei se vocês têm acompanhado a polêmica que se criou entre uma carta do apresentador da tevê Globo, Luciano Hulk, e a resposta do rapper Ferréz. Vou fazer um pequeno resumo do acontecido: Hulk, um sujeito bem de vida e de bem com a vida, saía de um restaurante
Assim começa a carta de Hulk: “ Luciano Huck foi assassinado. Manchete do “Jornal Nacional”. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura.
Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio.
Por quê? Por causa de um relógio.
Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado.
Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos, oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia”. Mas aqui está a melhor parte: “Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o Rolex, mas a indignação de alguém que, de alguma forma, dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir —com um 38 na testa— que o país está, em diversas frentes, caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase “infantis” para uma sociedade moderna e justa.
Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber. Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de “extraterrestres” fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo? Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: “Cansei”. Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.
Isso não está certo”.
A resposta de Ferréz é um libelo à violência, ainda que ele tenha certa razão em criticar a situação em que os governos deixaram esse país chegar. Ferréz é autor de Capão Pecado e atualmente finaliza seu novo livro, Manual Prático do Ódio. Por aí já dá para sentir qual é a linha de pensamento do rapaz. Dentre outras barbaridades que ele escreve na sua resposta, vamos ficar somente com o final, o remate simplista: Ferréz. Depois de toda uma emocionante história sobre a vida de um assaltante que só está nessa condição por culpa de inúmeros fatores externos a ele – afinal, ninguém escolhe ser assaltante, e vamos fingir que a vida é assim mesmo -, Ferréz finaliza com sua opinião realmente inteligente:
“No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria (como ele chama o assaltante) ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes”.
O complicado é conseguir entender sua lógica do Ferréz. Luciano Huck tinha um relógio e a vida dele. Os dois eram dele, sua propriedade. O assaltante chega e tira o relógio do Huck, deixando-o apenas com sua vida – lembrando: a vida já era dele e ele já a tinha antes do assalto. Onde foi que o Luciano Huck saiu ganhando, se no final ele ficou com menos do que antes? Que tipo de justiça é essa, em que eu tenho duas maçãs que consegui de forma honesta, você me rouba desonestamente uma maçã (me sobra apenas a outra) e magicamente todos saíram ganhando? Huck obteve de forma honesta seu Rolex – ganhou honestamente o relógio da esposa, que comprou honestamente o relógio com o dinheiro de um trabalho honesto, e relógio este, que adquirido numa loja que paga honestamente seus impostos.
Ferréz é realmente um homem de opinião, mas sem dúvida tem a opinião errada.
Esse é o nosso honesto Brasil!












