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terça-feira, 21 de abril de 2026

Delcídio fala sobre política e governo em entrevista

2007-07-10 09:22:37

Em quase duas horas de entrevista concedida com exclusividade ao site Midiamax de Campo Grande, o senador Delcídio do Amaral (PT/MS) criticou a decisão do governador André Puccinelli (PMDB) de acabar com os programas sociais e aproveitou para dizer que ele ainda não começou a fazer o que prometeu. “Ele (André) por enquanto não implementou aquilo que assumiu, pelo contrário, tirou os programas sociais. Mas ele alega que não pode fazer nada, pois precisa fazer os ajustes necessários para que o Estado tenha condições financeiras de acertar seus compromissos e deslanchar”, disse.

Apesar da crítica, o senador disse que continua conversando com André Puccinelli, pois sabe separar “muito bem” as diferenças partidárias dos interesses do Estado. Ele destacou que tem ajudado o governador a conseguir recursos junto ao governo federal, principalmente os provenientes do PAC (Programa de Aceleração de Crescimento) e de emendas parlamentares. “Tenho trabalhado, mais do que nunca com o governador. O que está em jogo é o futuro do Estado. Eu faço política para frente, não fico olhando no retrovisor”, destacou.

Delcídio também falou na entrevista exclusiva concedida ao site Midiamax sobre sucessão municipal e diz que poderia ser candidato a prefeito em Campo Grande, entretanto, ele avalia que o PT não tem estrutura para a disputa e precisa arrumar a casa. O parlamentar falou ainda sobre uma aliança com o PDT e elogiou o deputado federal Dagoberto Nogueira Filho, acrescentando que o apoio dele aumenta  a possibilidade de levar as eleições municipais do próximo ano para o segundo turno. “É uma liderança que nós temos mais contado. Nós conversamos lá em Brasília e aqui. O Dagoberto é uma liderança em ascensão”, elogiou.

Sobre o caso Renan, Delcídio defende que o Senado saia da paralisia em que se encontra e diz que a Casa errou ao transformar o problema de um senador em um problema do parlamento. “O senado está meia bomba”, diz o petista. Delcídio também fala sobre desenvolvimento e sobre a necessidade do Zoneamento Ecológico Econômico antes de permitir que as usinas do setor sucroalcooleiro se instalem em qualquer lugar do Estado. O senador também defendeu que o Congresso Nacional crie regras claras para a jogatina, em todas as suas modalidades, o que poderia trazer desenvolvimento para diversas regiões do País.

Há possibilidade de uma aliança PDT/PT ou é só uma conversa entre o senhor e o Dagoberto? Eu conversei com o Dagoberto no sábado (7) pela manhã. O PT e o PDT já marcharam juntos ao longo dos últimos anos. É uma coisa natural. Não estamos inventando a roda. Vejo isso de uma maneira positiva, pois repete uma aliança que já foi exitosa. Mas também tem um outro lado. Se o PDT lançar um candidato forte, e nós também, temos reais condições de levar a eleição na Capital para o segundo turno. As pesquisas mostram isso também. Voltando um pouco no tempo, em 2006, se nós tivéssemos uma aliança mais ampla nós teríamos levado a eleição no Estado para o segundo turno. Ainda, se tivessem saído candidatos mais fortes, também teríamos levado a eleição para o segundo turno.

O senhor não quer cometer o mesmo erro de ficar sem o PDT? Não houve erro em 2006. Em 2006 não havia interesse em se manter a aliança. Nós fizemos esforço para trazê-los e não conseguimos. Até porque existia uma posição pragmática no momento. A avaliação que eles tinham é que eu não sairia de 15%. Mas eles fizeram uma avaliação errônea e equivocada. Acho que hoje eles estão reavaliando essa decisão. Eu tenho convicção que boa parte deles entendem que erraram na escolha. Na eleição de 2006 nós enfrentamos o André que tinha 90% de ótimo e bom no fim da gestão em Campo Grande. Nós fizemos 32% em Campo Grande. Imagina se tivessem outros candidatos fortes ao governo?

Senador, além do Dagoberto, que outra liderança procurou o senhor? Eu conversei só com o Dagoberto. É uma liderança que nós temos mais contado. Nós conversamos lá em Brasília e aqui. O Dagoberto é uma liderança em ascensão.

Quem seria o candidato do PT? O senhor vai transferir o título para cá? Vamos discutir com o partido. Evidente que eu sou uma liderança do partido, mas vamos discutir. Eu conversei com a bancada estadual neste fim de semana. Conversamos sobre isso e disse que nós precisamos organizar o partido. Para ter sucesso temos que organizar o PT, ter um partido unido, coeso, junto com os aliados.

O senhor não sabe se é candidato? Nas condições hoje existentes, que o PT enfrenta, você não tem uma musculatura política para partir para uma candidatura própria.
Não é que o senhor não queira, mas o PT que não agüenta? É. Porque você pode ser um candidato forte popularmente, mas, se você não tiver estrutura política e uma aliança confiável, pode ter popularidade, mas perde a eleição. Por mais que você queira, politicamente o PT não reúne condições de fazer uma campanha boa, a despeito dos números e da situação real em Campo Grande.

Quando o senhor entrou no PT diziam que o senhor não era petista. Se o senhor for candidato em Campo Grande, não corre o risco de ser criticado por não ser um campo-grandense? Eu sou sul-mato-grossense e com muita honra corumbaense. O André não é daqui e foi prefeito. Ele teve uma vida política em Fátima do Sul, mas nasceu na Itália. Esse discurso não pega.

O senhor está seguindo o exemplo dele? Mas só que eu sou filho da terra. A diferença é essa. Sou um filho da terra que já andou pelo mundo inteiro. Eu tenho um tipo de formação diferente de todas as lideranças políticas do Estado, isso eu nunca refutei. Além do mais, eu moro em Campo Grande, sou nascido em Corumbá. O povo não está preocupado com essa questão de ser ou não ser. O povo quer saber se o camarada tem competência.

E o PR, antigo PL, procurou o senhor? O PR não. A gente percebe que eles estão na planície demais. Eles já viveram momentos melhores.

O ex-governador Zeca do PT tem articulado sua saída do PT? As últimas entrevistas que ele deu, ele insiste nisso. Acho que isso é uma discussão deserta. Temos três anos e meio até as eleições e, como disse o presidente Lula, muita água vai passar por baixo da ponte. E não pretendo deixar o PT. Se alguém tem dado demonstração de lealdade ao PT sou eu. Tenho andado pelo Estado, conversado com as lideranças. Ninguém pode falar nada. Onde teve eventos do PT eu estava lá. Não tenho interesse de sair do PT. Vem aí uma eleição direta do PT e em função desse desenho vamos saber o que se projeta para o PT em Mato Grosso do Sul. Na última eleição, enfrentando a máquina do governo, fizemos 43%. Acho que junto com outras lideranças podemos construir o futuro do partido.

A influência de Lula pode pesar contra a sua candidatura à reeleição? Não, o presidente Lula é muito pragmático. Quando alguém é presidente, não são vínculos de amizade que determinam a política. Tenho certeza absoluta disso.

Como o senhor avalia a tramitação da Reforma Política, que está emperrada na Câmara dos Deputados? Ao derrubar a lista fechada, caiu o financiamento público de campanha. Então, o que vai sobrar desse arremedo de Reforma Política: a Cláusula de Barreira, a questão da Fidelidade Partidária e essa discussão sobre a coligação na proporcional. Tem também a reeleição, que nós no Senado já aprovamos. É uma reforma muito menor do que se esperava. Nós precisamos discutir o voto distrital, que iria aumentar o controle social dos mandatos, mas infelizmente isso ficou para trás. Poderíamos ter avançado muito mais. Não conseguimos por vários interesses que, lamentavelmente, ainda prevalecem no Congresso Nacional.

Foi falta de apoio popular? Entendo que sim. As ruas ainda não se aperceberam dessas nuances ligadas a Reforma Política. O político é sensível, quando a voz das ruas cobra algo ele muda.
Se a Reforma Política não vai sair, como será a Tributária? É muito difícil sair também. Nós fizemos uma discussão ampla no Senado Federal, em que nós finalizamos com a redução da carga tributária em função do aumento do PIB (Produto Interno Bruto). É a uma coisa lógica, porque na medida em que você aumenta o bolo não tem porque taxar aqueles que já contribuem. Você teria redução gradativa de impostos, de uma forma coerente, associada ao crescimento do País, operando em valores que chegariam a 25% do PIB e não os 40% de hoje. A grande realidade é que o governo está numa zona de conforto com relação aos tributos. Nunca a receita arrecadou tanto.

Como o senhor avalia as denúncias contra o Renan Calheiros (PMDB/AL) e a renúncia do senador Joaquim Roriz (PMDB/DF)? Nós estamos passando por uma crise complicada. O Senado está meia bomba, inegavelmente. Na semana passada a CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) não deu quórum, acho que essa é a comissão mais importante do Congresso Nacional. Isso está prejudicando a votação de matérias importantes para o País. Nós não podíamos ter confundido a Casa com um problema específico de um senador, que foi o caso do Renan Calheiros. Tivemos na semana passada a renúncia do senador Joaquim Roriz. Já estamos diante de um outro problema, que é com o suplente do Roriz, que parece que o Psol deve entrar com uma representação contra ele. Mas acho que na semana passada começamos a reordenar as coisas. Agora o Conselho de Ética começando a trabalhar, nós começamos a recolocar as coisas nos eixos. Espero que saiamos dessa crise rapidamente, pois não é bom para o Brasil. Vamos fazer um esforço grande ao longo dessa semana para limpar a pauta, inclusive aprovando a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) numa sessão conjunta do Congresso Nacional.

Por que o Renan não saiu até agora? Ele não saiu porque a leitura que ele faz é a de que, se sair, perde os instrumentos que um presidente do Senado tem para se defender.

Como o senhor vê a questão da cana-de-açúcar no Estado, assunto discutido em audiência pública promovida pelo Senado em Campo Grande? Não podemos achar que o Etanol é a salvação de todos. É evidente que vai ter um espaço importante na economia mundial, mas não podemos prejudicar o meio ambiente. Agora, ao mesmo tempo, durante a campanha eleitoral, eu fiz uma defesa de montar uma diversificação econômica de Mato Grosso do Sul em função de um Zoneamento Econômico e Ecológico. Agregar investimentos em função das especificidades de cada região. Será que vale a pena implantar projetos de cana em áreas que hoje já produzem outros alimentos? Hoje, projetos ligados ao álcool e ao açúcar têm que ser implantados considerando uma série de premissas, não só ambientais, mas também trabalhistas. É preciso preparar esses municípios para o contingente de pessoas que vai chegar atraída pelos empregos. Outra questão é a queima da palha que tem trazido impacto na emissão de dióxido de carbono. Então, esses projetos são importantes, mas não podem ser instalados a qualquer preço, sem critérios claros e bem definidos. Daqui a pouco entramos achando que vamos descobrir a pólvora e vamos transformar Mato Grosso do Sul num grande canavial, o que é um tremendo retrocesso. Temos que investir no gás, por exemplo, temos condições para montar um pólo gás-químico.

E o poliduto, projeto que estava no PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), quando começa? O poliduto está definido já, aprovado pela Petrobras. Agora há uma discussão quanto ao trajeto. O projeto original era por Bataguassu. Estamos trabalhando para ele cruzar a região sul do nosso Estado, entrar para o Paraná e ir para o Porto de Paranaguá. A primeira etapa está aprovada. Vamos mandar álcool e receber de volta outros produtos, gasolina, diesel e gás de cozinha. É um projeto de R$ 1,2 bilhão.

Qual a sua avaliação do governo André hoje? Ele por enquanto não implementou aquilo que assumiu, pelo contrário, tirou os programas sociais. Mas ele alega que não pode fazer nada, pois precisa fazer os ajustes necessários para que o Estado tenha condições financeiras de acertar seus compromissos e deslanchar.
O senhor acredita nisso? É o que ele diz. Mas espero que ele tenha sucesso, senão vamos perder alguns anos patinando.

O senhor tem conversado com ele? Nós temos conversado sim. Eu separo muito bem. Nós fomos adversários políticos. Eu tenho ajudado, como ajudei na liberação da medida provisória para combate a febre aftosa, que era um compromisso do governador com os moradores da região. Tenho trabalhado para liberar recursos do PAC e de emendas parlamentares. Tenho trabalhado, mais do que nunca com o governador. O que está em jogo é o futuro do Estado. Eu faço política para frente, não fico olhando no retrovisor.

O que o senhor acha da discussão sobre o jogo no Brasil? O senhor é a favor da legalização? Acho que nessa questão do jogo, o melhor é a gente discutir abertamente, sem hipocrisia. Vamos ou não vamos fazer? Vamos estabelecer uma legislação clara. O ruim é ficar nessa zona cinzenta, sem ninguém saber o que vale e o que não vale. Tem que discutir de uma maneira clara e encerrar esse assunto.

O senhor é a favor da criação de cassinos? Eu não tenho opinião formada. Há anos atrás vários hotéis se organizaram para formar cassinos. Acho que é uma questão de discutirmos. Mas, conheço muitos países que instalaram cassinos em algumas regiões e esses cassinos são fontes de renda. A gente pode definir algumas regiões como passíveis de receber investimentos como esse.

Senador, diante das crises que o País atravessa, para onde vai o Brasil? Eu tenho uma visão otimista. Acho que essas coisas todas estão ajudando o Brasil a melhorar. Acho que o Brasil, apesar de ter experiências doloridas que levam as pessoas a se decepcionarem, eu acho que tudo isso vai ajudar o Brasil a seguir seu rumo, a entender os verdadeiros valores que devem pautar uma sociedade. Vejo nesse momento de crise uma oportunidade de sair melhor do que a gente entrou. Vai levar o Brasil a melhorar sua legislação e trabalhar pelo que realmente consolida uma consciência nacional, principalmente focando o futuro do nosso povo na Educação. A crise é que traz a luz e nós vamos chegar lá. O povo brasileiro é um povo inteligente. Vamos melhorar muito investindo na educação.






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