Gazeta de Amambaí

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Quarta-Feira, 22 de Fevereiro de 2012 às 12:25

Opinião "Ordem, progresso e medo instrumental" por Rogério Lemes


Rogério Fernandes Lemes*

A compreensão de uma sociedade, seja ela qual for, exige observações quanto à sua estrutura funcional, suas práticas coletivas e peculiares, bem como a Weltanschauung, isto é, sua cosmovisão e a função social de seus indivíduos. Em maior ou menor grau floresce, no imaginário das pessoas, uma perturbação psicológica diante de ameaças e perigos reais ou imaginários.

A interdependência dinâmica das culturas humanas desenvolve mecanismos sociais para a resolução de problemas e conflitos existentes, sejam racionais ou meramente supra-sensíveis. Não importa o método. O fato é que uma estrutura normativa, invisível e permanente passa a ser apresentada e conhecida por todos os indivíduos e, a observância dessas normas deve ser prontamente demonstrada no corpo social, sob um olhar vigilante, também invisível, porém real e micro distribuído.

Neste esforço contínuo pela ordem social e no combate daquilo que possa comprometê-la, nem sempre as ações desenvolvidas produzem resultados satisfatórios. Tomemos como exemplo a “guerra contra o terrorismo”, decretada pelo governo americano cujo inimigo, real, está mais para suas próprias ações militares desastrosas do que, de fato, os supostos terroristas.

A incorporação da insegurança no presente e da incerteza no futuro, potencializada pela responsabilidade individual somando-se ao enfraquecimento do Estado-nação e do esfacelamento da solidariedade social, produzem nas “sociedades abertas”, inseridas na “globalização negativa”, uma angústia existencial pelo fracasso dos indivíduos e o medo generalizado, pela sensação de insegurança e de impunidade.

A guerra contra o terrorismo produz mais vítimas do que os próprios terroristas podem, efetivamente, atingir, até mesmo por seus escassos recursos se comparados ao aparato militar e tecnológico utilizado pelo Estado; aparato este, incapaz de detectar, com precisão, as organizações terroristas.

Na proliferação desordenada do medo, cujo agente principal é o próprio Estado, empresas especializadas triplicam seus lucros em um mercado cada vez mais ascendente de armas e técnicas de defesa pessoal. As armas leves, segundo Bauman, matam mais do que os “atentados terroristas”.

Como fora sustentado acima, o enfraquecimento do Estado-nação se dá pelo não envolvimento de seus cidadãos na coisa pública. A segurança pública é dever do Estado e responsabilidade de todos. Os problemas locais não poderão ser resolvidos se, na esfera global, eles forem ignorados. A globalização nos impõe uma relação ainda maior de interdependência com outras sociedades. Os brasileiros não se sentirão seguros se gregos, árabes, americanos e tantos outros países estiverem inseguros.

A tese da livre concorrência de mercado se fragmenta em seu discurso neoliberal, pelo fato de contribuir para a destruição da solidariedade social, ao fortalecer ações individualizadas. A repressão ao “terror comercial” potencializa a negligência do Estado do bem estar social, uma vez que os governos administram as crises apenas com o intuito de se manterem no poder. No entanto, estão desprovidos de planejamento e projetos a logo prazo, com reais condições de garantir as necessidades básicas de seus contribuintes.

O sucesso dos altos lucros da indústria do medo se apóia na demanda dos indivíduos (des)orientados, em suas “próprias” escolhas, por garantias de proteção. Escolhas estas norteadas por ideologias que fragmentam o pensamento humano e, consequentemente, produzem ações individualizadas. Ordenadamente se progride para o uso cada vez mais instrumentalizado do medo.

Em países com baixo índice de desenvolvimento social, as ações de combate ao medo generalizado, por parte do uso legítimo da violência, produzem mais traumas e vítimas do que os benefícios a que se propõe oferecer. O terror se espalha entre a sociedade pelo fato de sua justiça, ou de seu mecanismo jurídico, ter caído em descrédito perante a opinião pública.

Assim, sociedade e indivíduos seguem uma ordem rumo a um progresso que não os liberta de seus medos; ao contrário, paralisa-os.

*Sociólogo Reg. MTE nº. 163/MS - twitter.com/rogeriociso

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