2009-04-29 16:07:00
Apesar de seu recente acordo com a Bolívia, que estabeleceu definitivamente os limites com o mencionado país na região do Chaco, o Paraguai parece incapaz de resolver a secular disputa interna de terras, travada entre colonos e indígenas de diversas etnias.
Um dos casos deste tipo, que desenrola-se desde o ano passado, foi retomado pelo Diário Última Hora nesta terça-feira (28), ao informar sobre a disputa envolvendo agricultores, muitos deles, de origem brasileira, e indígenas no departamento (estado) de Alto Paraná.
De acordo com o diário, o conflito ocorre na região das localidades de Itakyry e San Alberto, localizadas a aproximadamente 120 quilômetros ao norte de Ciudad del Este, onde 65 famílias da etnia Avá Guaraní revindicam a posse de 2.638 hectares de terras que lhes foram destinadas pelo Instituto Nacional do Indígena (INDI). No entanto, os nativos denunciam que agricultores teriam invadido suas terras e as utilizariam para seus cultivos.
Por sua vez, os agricultores alegam possuir documentos que comprovariam a posse das terras, alguns deles datados de mais de 20 anos. No entanto, mesmo a legitimidade destes documentos é contestada, existindo até mesmo alguns agricultores que reconhecem a sobreposição de escrituras.
É o caso de Mario Schmidt, que por conta própria solicitou uma medição judicial de sua propriedade de 300 hectares, descobrindo, como resultado, que dois dos lotes que a compõe, que juntos medem 157 hectares, encontram-se sobrepostos às terras indígenas.
O clima de tensão, que já era marcante, aumentou quando os advogados da Coordenadoria Nacional da Pastoral Indígena (CONAPI) obtiveram uma ordem judicial impedindo os agricultores de continuar cultivando nas terras em disputa.
Por sua vez, os agricultores cujas terras encontram-se sob suspeita de sobreposição decidiram aglutinar-se, formando a Associação de Produtores Agropecuários de Imóveis Invadidos (APAII), que congrega, além dos sete proprietários cujas escrituras são questionadas pelo INDI, outros 17, que alegam não terem formado a associação "para criar problemas", mas para provar que as terras cuja posse foi dada aos nativos não se encontram em suas propriedades.
Os indígenas, por sua vez, afirmam que recebem constantes ameaças por parte dos produtores rurais, tendo alguns dos nativos até mesmo presentado denúncia contra os produtores. É o caso de Ignacio Gauto, líder da comunidade Ka’a Poty, que apresentou denúncia contra Ofelio Blanco na Promotoria de San Alberto.
Na citada denúncia, o indígena conta que, acompanhado por outros homens armados com escopetas, Blanco teria invadido a comunidade Ka’a Poty, disparando tiros de advertência.
"Volta e meia eles vem com armas e nos ameaçam. Não podemos viver em paz, tomam nossas mulheres e fazem o que querem com nossas coisas" contou o líder indígena, que afirma também que, diversas vezes, policiais, promotores e até juízes tentaram desalojar sua comunidade.