2007-10-29 14:32:00
Eleita com 44,10% dos votos, Cristina Kirchner obteve o mínimo de 10% de vantagem sobre a segunda colocada, Elisa Carrió, que ficou com 23,24% da preferência do eleitorado. Por volta das 6h30 desta segunda-feira, 86,5% das urnas já haviam sido apuradas.
Mesmo antes dos resultados oficiais, com apenas pouco mais de 15% das urnas apuradas, Cristina fez o discurso da vitória por volta das 23h30 (horário de Brasília) na noite de domingo. Em seu discurso, a senadora e primeira dama afirmou que sua vitória representa também uma questão de gênero e chamou as mulheres argentinas a participarem da luta política. Cristina agradeceu a todos e se emocionou ao falar do marido, o atual presidente Néstor Kirchner.
Cristina disse que tem "uma dupla responsabilidade" após ser escolhida presidente segundo dados oficiais provisórios do pleito realizado neste domingo."Tenho uma dupla responsabilidade, como presidente e como mulher", afirmou."Convoco minhas irmãs de gênero, donas de casa, mulheres empresárias e profissionais, operárias das fábricas, estudantes das universidades", sustentou. "Sei que podemos desenvolver uma grande tarefa por nossas aptidões especiais, por termos sido cidadãs do privado e do público, por termos articulado o mundo da família e da militância. E por termos feito bem as duas coisas", apontou.
Cristina pode ser a segunda mulher a assumir a Presidência da Argentina, e a primeira eleita, após María Estela Martínez de Perón, que em 1974 era primeira-dama e vice-presidente e chegou ao poder após a morte de seu marido, Juan Domingo Perón. A primeira-dama, de 54 anos, insistiu em que é "necessário aprofundar as mudanças" no país. Ao término de seu discurso, Cristina foi saudada ao pé do palco pela ex-candidata socialista à Presidência da França Ségolène Royal.
Kirchner, o marido- Nas eleições gerais deste domingo na Argentina, além de eleger sua esposa para sua sucessão, o presidente Néstor Kirchner quer aumentar sua hegemonia no Congresso Nacional. Das 257 cadeiras da Casa, 130 serão renovadas nestas eleições.
Atualmente, o "kirchnerismo" (corrente seguidora do presidente Kirchner) conta com o apoio de 140 deputados, enquanto que a oposição possui 117 parlamentares, dos quais 37 são da União Cívica Radical (UCR), 24 do Proposta Republicana (PRO) e aliados provinciais, 24 peronistas dissidentes, 14 do Alternativa para uma República Igualitária (ARI) e 18 de pequenos partidos.
Dos 130 mandatos que vão se renovar, o maior peso eleitoral está na província de Buenos Aires (35 cadeiras) e a Capital (12 cadeiras). Kirchner quer ficar com pelo menos 20 mandatos da província de Buenos Aires, avançando sobre um reduto que antes pertencia ao seu ex-padrinho e atual inimigo político, o ex-presidente Eduardo Duhalde. O presidente também tem avançado sobre o terreno radical, haja visto o candidato a vice de sua esposa, Julio Cobos, governador de Mendoza, que saiu da UCR.
Desafios- Apesar da vitória folgada, Cristina enfrentará uma série de desafios para os próximos quatro anos, entre eles a alta inflação, os preços das tarifas congeladas e a escassez energética. "O atual presidente postergou o que era impopular", disse à BBC na sexta-feira o economista Orlando Ferreres, da consultoria Ferreres e Associados, referindo-se à dificuldade do governo do marido de Cristina, Néstor Kirchner, em adotar políticas impopulares ao longo dos seus quatro anos na Casa Rosada.
A inflação oficial nos últimos 12 meses foi de 8,6%. Esse é um dos índices mais altos da região, segundo diferentes consultorias privadas. Ainda assim, muitos institutos independentes afirmam que o dado está muito abaixo do valor real. Uma pesquisa realizada pela Sel Consultores entre empresários revelou que, para as empresas, a inflação nesse período foi o dobro da oficial, 16,5%. O mesmo opinam diferentes economistas.
As tarifas dos serviços públicos privatizados, como gás, telefone e energia, estão, por sua vez, congeladas há seis anos. Representantes das empresas pedem ajustes, alegando que, além de congeladas, as tarifas foram "pesificadas" – desvalorizadas frente ao valor do dólar em 2002.
Crise energética- No último inverno, diferentes empresas reclamaram de cortes de luz e houve temor de um apagão. O setor empresarial argumenta que é necessário ajustar tarifas para ampliar investimentos e evitar a falta de luz no próximo verão. Segundo o jornal El Cronista, o setor industrial decidiu "colocar o pé no acelerador" agora para não sofrer ameaças de corte de energia elétrica no verão.
O setor industrial argentino usou no mês passado um índice recorde das suas máquinas (78,7% do total), num momento em que o consumo também bate altos índices, após quatro anos seguidos de crescimento econômico com taxas anuais superiores a 8%. O temor no setor industrial, afirmam diferentes economistas, é que esse alto índice da capacidade instalada gere problemas no setor de consumo e contribua para a alta de preços.
Votação- O fim da votação foi adiado por 60 minutos e concluído às 19 horas locais (20 horas de Brasília), por causa de problemas e atrasos ocorridos durante a eleição. A votação começou com atraso porque muitas pessoas que foram convocadas para trabalhar nas mesas eleitorais não compareceram, mesmo sob a ameaça de serem presas, como prevê o código eleitoral. Segundo o diretor do Comitê Nacional Eleitoral, Alejandro Tulio, cerca de 700 voluntários compareceram para ocupar as vagas de mesários e a situação se normalizou cerca de duas horas depois de aberta a votação.
Denúncias- Denúncias formais de cinco dos 14 candidatos à Presidência da Argentina, por falta de cédulas de votação com seus nomes, prometem provocar muitas polêmicas. A organização não-governamental Fundação Poder Ciudadano informou que recebeu "160 ligações telefônicas, em sua grande maioria de eleitores da Província de Buenos Aires, que denunciavam a falta de cédulas".
O sistema argentino é confuso, já que o eleitor, ao entrar na cabine, chamada pelos argentinos de "quarto escuro", se depara com inúmeras cédulas dos vários candidatos de diferentes partidos para votar. No caso da eleição para deputados e senadores, existe o sistema de listas, chamado de "sábana" (lençol, em português), que tem um cabeça de chapa, que acaba puxando votos para os demais candidatos que o seguem.