16.9 C
Amambai
sexta-feira, 12 de junho de 2026

Obesidade no Brasil dobra em menos de duas décadas

Mudanças na alimentação, redução da atividade física, alterações no sono e fatores metabólicos ajudam a explicar o crescimento da doença.

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde mostram que 25,7% dos adultos brasileiros viviam com obesidade em 2024, mais que o dobro dos 11,8% registrados em 2006. No mesmo período, a proporção de pessoas com excesso de peso passou de 42,6% para 62,6% da população. Em outras palavras, quase dois em cada três brasileiros apresentam peso acima do considerado adequado, enquanto um em cada quatro convive com a obesidade. “Os números fazem parte do Vigitel Brasil 2025, pesquisa anual do Ministério da Saúde que monitora fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico nas capitais brasileiras e no Distrito Federal. Além do aumento do peso corporal, o estudo também identificou crescimento expressivo de doenças associadas, como diabetes e hipertensão.

Os dados revelam que a obesidade passou a representar um dos principais desafios de saúde pública do país. A condição é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica, complexa e multifatorial, influenciada por fatores genéticos, hormonais, ambientais, emocionais e sociais.

O que os números revelam?

Os indicadores divulgados pelo Ministério da Saúde mostram uma mudança no perfil de saúde da população brasileira ao longo das últimas duas décadas. Em apenas 18 anos, o excesso de peso aumentou 20 pontos percentuais.

Os reflexos aparecem também em outras condições crônicas. O diagnóstico médico de diabetes passou de 5,5% da população adulta em 2006 para 12,9% em 2024. Já a hipertensão cresceu de 22,6% para 29,7% no mesmo período.

A obesidade se tornou o principal fator de risco para a saúde da população brasileira, superando outros indicadores tradicionalmente monitorados pelos serviços de saúde. O aumento acompanha mudanças nos hábitos de vida, no padrão alimentar e na rotina de deslocamento das cidades.

Outro dado do levantamento diz respeito à atividade física. A prática relacionada ao deslocamento diário — a pé ou de bicicleta — caiu de 17% em 2009 para 11,3% em 2024. Em sentido oposto, a proporção de adultos que realizam pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada no tempo livre aumentou de 30,3% para 42,3% no mesmo período.

Pela primeira vez, o Vigitel também avaliou aspectos relacionados ao sono. Os resultados mostram que 20,2% dos adultos dormem menos de seis horas por noite, enquanto 31,7% apresentam sintomas de insônia. Esses fatores — a privação de sono e a diminuição de caminhada, além das alterações metabólicas — possuem relação direta com ganho de peso e dificuldade de controle da obesidade.

Por que engordamos mais nas últimas décadas

Não existe uma única explicação para o crescimento da obesidade. A doença é resultado de diferentes fatores que se acumulam ao longo do tempo. Entre eles estão o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, a redução da atividade física cotidiana, o estresse crônico, alterações no padrão de sono e mudanças no ambiente urbano. Ao mesmo tempo, a alimentação considerada mais saudável nem sempre é a opção mais acessível para parte da população.

Os dados do Ministério da Saúde mostram que o consumo regular de frutas e hortaliças permaneceu praticamente estável nos últimos anos, alcançando cerca de 31% dos brasileiros. Isso indica que, apesar do aumento das informações sobre alimentação saudável, os hábitos alimentares não evoluíram na mesma velocidade do crescimento da obesidade.

Segundo o cirurgião geral Bruno Alves, em entrevista ao Jornal Ponto Final, “a obesidade não deve ser interpretada apenas como consequência de escolhas individuais. Fatores genéticos, hormonais e metabólicos influenciam diretamente o risco de desenvolvimento da doença”.

A própria OMS destaca que o diagnóstico não deve se basear exclusivamente no peso corporal ou no Índice de Massa Corporal (IMC). O impacto do excesso de gordura sobre a saúde e a presença de doenças associadas são elementos importantes na avaliação clínica.

Quando a obesidade vira doença

O reconhecimento da obesidade como doença crônica alterou a forma como ela é tratada. Durante muitos anos, a recomendação era baseada quase exclusivamente em dieta e atividade física. Hoje, existe uma abordagem mais ampla, que envolve acompanhamento médico, orientação nutricional, suporte psicológico e, em alguns casos, tratamento medicamentoso.

Os avanços mais recentes ocorreram justamente na área dos medicamentos voltados ao controle do peso. Segundo o médico, as chamadas canetas emagrecedoras representam uma mudança importante porque reforçam que a obesidade exige tratamento médico estruturado, e não apenas orientações genéricas sobre alimentação. “Esses medicamentos atuam em hormônios relacionados à fome, à saciedade e ao controle da glicose”, explica.

Entre as opções disponíveis mediante prescrição médica, medicamentos injetáveis como o mounjaro 5mg, dose de início do protocolo de escalonamento da tirzepatida, passaram a integrar o arsenal terapêutico aprovado pela Anvisa para adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades.

A aprovação de novas indicações terapêuticas não significa, porém, que os medicamentos substituam mudanças de hábitos. Conforme orientações médicas, a alimentação adequada, a atividade física regular e o acompanhamento multiprofissional continuam sendo componentes importantes do tratamento.

Encarar o problema de forma saudável e consciente

O aumento da obesidade no Brasil mostra que o desafio está em lidar com uma condição associada a doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão e outras complicações que impactam diretamente a qualidade de vida.

Enfrentar esse cenário exige uma combinação de estratégias que envolvem prevenção, acesso à informação, acompanhamento multiprofissional e tratamentos adequados para cada caso. Ao mesmo tempo, os avanços da ciência ampliaram as opções terapêuticas disponíveis, o que reforça uma mudança importante de perspectiva: a obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial, que demanda cuidado contínuo e abordagem individualizada, assim como outras condições de saúde de longo prazo.

Fonte: Divulgação

Leia também

Edição Digital

Jornal A Gazeta – Edição de 12 de junho de 2026

Clique aqui para acessar a edição digital do Jornal...

Enquete