21.3 C
Amambai
terça-feira, 2 de junho de 2026

A Sombra da Manada – Por Pr. Werley Scardini

O sábado em Paris tinha tudo para ser uma festa memorável. O segundo título consecutivo da Champions League, a catarse coletiva, os cânticos que ecoavam pelas avenidas. Mas, quando a noite caiu, as luzes da Cidade Luz foram ofuscadas pelo brilho alaranjado de carros em chamas e pelo estilhaçar de vitrines na Champs-Élysées. Olhando as imagens dos confrontos, a pergunta que assalta qualquer observador atento não é sobre futebol, mas sobre a natureza humana: quem são aquelas pessoas atrás das máscaras e dos capuzes?

Se isolássemos cada um daqueles torcedores em sua rotina de segunda-feira, provavelmente encontraríamos trabalhadores comuns, pais de família, estudantes e cidadãos que, individualmente, pediriam desculpas por esbarrar em alguém no metrô. No entanto, diluídos na massa, eles se transformaram. Sob o manto do anonimato que a multidão oferece, o freio moral falha, a autoconsciência evapora e a culpa, que deveria ser um peso individual, passa a ser vista como algo dividido por milhares — o que, na mente do baderneiro, a torna tragicamente leve.

A psicologia chama isso de desindividualização; o senso comum chama de efeito de manada. Mas o maior erro que podemos cometer ao assistir a essas cenas de vandalismo na Europa é acreditar que estamos imunes a esse fenômeno só porque não vestimos uma camisa de torcida organizada para quebrar praças públicas. A verdade é que a “multidão” nos convida para o erro todos os dias, de forma muito mais sutil e silenciosa, bem debaixo do nosso nariz.

A multidão está presente no escritório, quando a maioria decide isolar ou ridicularizar um colega através da fofoca, e nós, para não parecermos antissociais ou “certinhos demais”, rimos junto ou nos calamos. A multidão opera nas redes sociais, quando um linchamento virtual é decretado e digitamos nossa dose de sarcasmo ou julgamento simplesmente porque o algoritmo e a massa já decidiram quem é o vilão da semana. A multidão se manifesta no círculo de amigos, quando pequenas posturas de soberba, desonestidades cotidianas ou desvios éticos são validados pelo comportamento do grupo.

“Todo mundo faz”, sussurra a massa ao nosso ouvido. E, confortados pelo número, cedemos.

Essa nossa inclinação em terceirar a consciência para o bando é um vício antigo da humanidade. Há milhares de anos, quando as sociedades ainda engatinhavam na formulação de seus códigos jurídicos e morais, a Lei de Moisés já trazia um freio de mão cirúrgico para essa tendência.

No livro de Êxodo, o texto adverte textualmente: “Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem num juízo responderás, inclinando-te para a maioria, para torcer o direito.” (Êxodo 23:2)

O mandamento milenar é de uma precisão psicológica impressionante. Ele não nos proíbe apenas de liderar o erro; ele nos proíbe de seguir. Ele retira o homem do conforto anestésico do grupo e o coloca sozinho diante do espelho e do Tribunal divino. A mensagem é clara: no fim das contas, a responsabilidade não se divide. Se mil pessoas cometerem uma injustiça juntas, não são mil pequenos fragmentos de erro; são mil injustiças inteiras cometidas por mil indivíduos que escolheram abrir mão da própria integridade.

Paris nos deixa uma lição que vai muito além das páginas de esportes ou de segurança pública. Ela nos lembra que o pertencimento a um grupo nunca deve custar a nossa identidade moral. Viver com retidão exige a coragem quase heroica de, às vezes, caminhar na contramão.

A verdadeira maturidade de um homem não se mede pela força com que ele grita no meio do bando, mas pela firmeza com que ele sustenta os seus valores quando a maioria decide silenciá-los.

Leia também

Edição Digital

Jornal A Gazeta – Edição de 02 de junho de 2026

Clique aqui para acessar a edição digital do Jornal...

Enquete