A elevação da inadimplência do crédito rural no Brasil expõe limites estruturais de um modelo que priorizou a expansão do financiamento sem integrar de forma efetiva a gestão de risco. A análise consta em artigo assinado por Daniel Miquelutti, head de novos negócios nas áreas de tecnologia, gestão de risco e inovação em seguro agrícola.
Segundo o texto, a taxa de inadimplência atingiu 11,4%, com base em dados do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro, do Banco Central, e não pode ser tratada como evento isolado. O avanço expressivo frente aos níveis registrados em 2023 e 2024 revela o acúmulo de fragilidades de um sistema que ampliou o crédito enquanto manteve o risco climático e de mercado como elemento secundário. Esse cenário, conforme a análise, pressiona o custo do crédito, reduz o interesse das instituições financeiras e amplia a dependência de subsídios públicos.
O quadro se agrava diante da maior frequência de eventos climáticos extremos e da baixa cobertura do seguro rural. Dados oficiais citados no artigo mostram que o programa de subvenção ao prêmio do seguro cobriu menos de 5% da área agricultável em 2024, no pior desempenho em mais de uma década. Para o autor, insistir em crédito sem proteção não reduz riscos, apenas posterga perdas que acabam recaindo sobre produtores, sistema financeiro e políticas públicas. A inadimplência recorde, nesse contexto, reflete menos a fragilidade do produtor e mais a resistência do modelo em integrar crédito, seguro e gestão de risco.
“A deterioração recorde do crédito rural não é um efeito colateral inevitável do clima. É o sintoma de um modelo que se recusa a evoluir. Tratar o seguro como acessório deixou de ser uma opção viável. Em um agronegócio cada vez mais exposto a riscos extremos, crédito sem proteção não é estratégia de desenvolvimento, é aposta. E os dados do Banco Central mostram, de forma inequívoca, que essa aposta está sendo perdida”, conclui.





