Em pneu, tubo de salgadinho de batata e até enrolados em mantas, os contrabandistas estão cada dia mais criativos para esconder produtos extremamente lucrativos, especialmente nos grandes centros: os emagrecedores. No entanto, apesar de mais baratos que os legalizados, esses medicamentos não só oferecem riscos à saúde devido à procedência duvidosa ou uso sem orientação médica, como o transporte em temperatura inadequada pode simplesmente fazer com que a substância ‘certa’ perca o efeito quando chega ao destino.
“O paciente fará uso de um medicamento caro e que não fará efeito. Ficará frustrado achando que o medicamento não funciona ou o seu corpo não responde bem ao tratamento, mas na verdade é o produto que está literalmente ‘estragado’”, explica a presidente do CRF-MS (Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso do Sul), Daniely Proença, se referindo como exemplo, aos efeitos da alta temperatura na Tirzedpatida (princípio ativo do Mounjaro), que está entre as mais trazidas ilegalmente do Paraguai para o Brasil
Ela detalha que antes de ir para as prateleiras, os medicamentos passam por estudos de estabilidade que apontam as condições ideias de armazenamento. Isso para que as moléculas mantenham sua integridade e produzam o efeito desejado. No caso da Tirzepatida, o ideal é a refrigeração entre 2°C e 8°C, podendo ficar abaixo de 30°C por até 21 dias. “Fora dessas temperaturas, o princípio ativo se deteriora, perde sua função”, afirma Daniely.
Ela explica que essa consequência é para quando o princípio ativo é o verdadeiro. “Se não for, pode ser ainda que se forme substâncias nocivas quando exposto a altas temperaturas, que podem desencadear alguma reação alérgica, por exemplo”, esclarece, lembrando que a procedência duvidosa pode favorecer a venda de itens falsificados, com substâncias diferentes das descritas no rótulo.

Os frascos também não possuem indicador de temperatura e uma análise visual não é suficiente para avaliar se foi transportado corretamente ou não. “Às vezes, o produto que saiu da refrigeração apresenta manchas ou enrugamento do papel da embalagem, mas nem sempre”, explica. “Olhando o líquido, no caso da Tirzepatida, a solução injetável é transparente e incolor a levemente amarelada. Isso não muda mesmo com exposição a temperatura”, esclarece.
MEDICAMENTO QUENTE
As apreensões de emagrecedores em canetas ou frascos pelos órgãos de segurança se intensificaram na fronteira e na grande maioria das vezes, a armazenagem é inadequada. Além da Tirzepatida, são trazidos outros itens semelhantes, incluindo Retatrutida, que ainda está em fase de testes em animais.
“É comum que esses medicamentos sejam transportados junto com outras mercadorias ilegais, como cigarros contrabandeados, eletrônicos, perfumes, medicamentos diversos e anabolizantes, na tentativa de dificultar a fiscalização, explica a 2ª Tenente Dyanessa Turra, chefe da Assessoria de Comunicação do BPMRv (Batalhão de Polícia Militar Rodoviária).
“Muitos desses produtos exigem refrigeração, mas são encontrados em malas, mochilas ou compartimentos ocultos”, explica. Além disso, os itens chegam a ficar por horas nessas condições inadequadas, quando saem da fronteira. Isso porque “o principal destino são os grandes centros urbanos, onde esses medicamentos são revendidos de forma ilegal, muitas vezes para clínicas clandestinas, academias ou diretamente ao consumidor final, inclusive por meio da internet e das redes sociais”, pontua Dyanessa.
Na semana passada, a corporação chegou a encontrar dezenas de frascos de emagrecedores no porta-malas de um veículo, dentro do estepe, junto com um aspirador de pó robô contrabandeado.

ESTRATÉGIA
O chefe da Delegacia Especializada de Fronteira da PRF (Polícia Rodoviária Federal) em Dourados, Waldir Brasil, explica que a estratégia adotada pelos contrabandistas para esconder emagrecedores, tem sido muito semelhante às usadas por traficantes, que buscam por compartimentos ocultos em veículos para o transporte.
“Na fiscalização em busca de droga, nos deparamos com o ‘Mounjaro’”, afirma. “Em fundos falsos de mala, escondido em ônibus onde o auxiliar do motorista havia ocultado, amarrados no corpo, em fundo falso de garrafa d’água de 5 litros”, exemplificou lembrando que os principais destinos são Dourados, Campo Grande e São Paulo.
Em um ônibus que seguia de Ponta Porã até a capital paulista, a PRF encontrou com uma mulher dezenas de frascos desses medicamentos, parte deles dentro do tubo de um salgadinho de batata muito vendido na fronteira. A mercadoria veio ‘disfarçada’ de lanche, com outros pacotes e até uma embalagem de suco vazia.
Em 2025 foram apreendidos pela corporação na fronteira, 1,2 mil frascos ou canetas. Na semana passada, mais um caso, dessa vez 400 ampolas enroladas em mantas que seriam despachadas através do transporte rodoviário, também com destino a São Paulo. Já as polícias estaduais – BPMRv e DOF (Departamento de Operações de Fronteira) –, chegaram a apreender mais de 3 mil desde o ano passado, segundo dados divulgados pela Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública).

A resposta para a inclusão do medicamento entre os itens procurados por contrabandistas está na lucratividade, motivada pela alta demanda. A estimativa é de que ampolas ou canetas cheguem a custar R$ 250 no Paraguai, tendo um valor de revenda que pode chegar a R$ 900 nos grandes centros, ou seja, um lucro que pode atingir cerca de 300%.
É CRIME
O subdiretor do DOF, Major Eduardo Garcia Marques, lembra que “esses medicamentos são sujeitos a controle sanitário e necessitam de autorização da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] para importação e comercialização no Brasil”. “Quando não são introduzidas pelos canais legais, a importação é considerada irregular”, pontua.
“Após a apreensão, os medicamentos são encaminhados à delegacia da Polícia Federal ou à Receita Federal”, explica. “Essas instituições são responsáveis pelos trâmites administrativos e criminais relacionados tanto aos produtos quanto às pessoas envolvidas”, complementa o Major Garcia.
Quando o produto não possui registro regular no Brasil, não existe quantia permitida, ou seja, é proibido trazer ainda que em poucas quantidades para uso pessoal. A pessoa flagrada transportando ou importando esses medicamentos pode responder pelo crime de contrabando, cuja pena varia de dois a cinco anos de prisão.
O CRF/MS pontua que muitos desses medicamentos são classificados como controlados devido ao potencial de causar efeitos adversos significativos. Por isso, é importante ter acompanhamento médico e orientação farmacêutica adequada para consumir a medicação, sendo que o uso de medicamento contrabandeado pode colocar em risco o tratamento e a saúde de quem consome.
Fonte: Fabiane Dorta/Dourados News





