2009-07-28 19:25:00
Eh ch’amigo, você já sorveu o tereré??? É um néctar que nos foi trazido pelos irmãos guaranis, antigos habitantes dessas paragens, composto de água, erva, bomba e cuia. Mas esses não são os principais ingredientes de que lhe falo. O que impressiona é o que o tereré traz consigo: uma boa roda de gente, mãos a servir e serem servidas e seres a sorrir, a matraquear, a se reunir. Por isso, o verdadeiro simbolismo desta bebida é o que ela representa para o cultivo da amizade. Sim, porque só se reúnem em torno da cuia, aqueles que desejam a convivência recíproca, pessoas de quem se gosta. Talvez a explicação para tanta devoção, seja porque por aqui tudo era pé de erva, mas que era muito custoso e sofrido colhê-la. Os homens precisavam passar por todo tipo de provação, trabalhavam como escravos e por isso precisavam uns dos outros para sobreviver. O seu alento eram as rodas de tereré, onde podiam ter um tempo à vontade, para falar o quê e de quem quisessem, coisas raras naqueles tempos, e nessas horas esqueciam, mesmo que por pouco, o inferno verde em que viviam. Para tudo, há paragem para o tereré: se trabalhando, lá pelo meio da manhã e depois no meio da tarde, são os momentos melhores para um merecido repouso, umas goladas do mate gelado pra poder recobrar as forças e voltar pro eito; se vagabundeando, melhor ainda; aí é quando der sede mesmo e tiver uma companhia, por supuesto, o importante entre uma golada e outra é o trololó; solito não tem graça. Se for preparado com ‘remédios de jujus’, tipo cocum, burrito, quebra-pedra ou boldo, melhor ainda, que essas plantas medicinais são boas pra tudo, curam de ressaca até câncer; não ria; não digo que elas curam depois do bicho aparecido, mas que evitam dele aparecer, ah, isso elas evitam. A maior homenagem que você pode fazer ao tereré é servi-lo em cuia de chifre de boi, bem talhada e trabalhada, água numa moringa de porongo, recheada dos jujus que lhe falei e erva cancheada, colhida pelos ervateiros ainda sobreviventes, mesmo que não chamados mais de ‘mineiros’, passada pelo sapêco à moda antiga, nem tão grossa, nem tão fina. No ponto. Erva de tereré. Só não me venha com invencionices, ervas com sabor de menta, de laranja e não sei mais o quê, que isso já é frescura. Mas observe bem alguns rituais que são sagrados sob pena do Pombero lhe aparecer durante a madrugada e lhe arrancar as entranhas. Tereré se toma sentado, assim como o baile é bailado. Óbvio ululante, se se tem como princípio universal que o tereré é muito mais uma reunião para prosas e causos, não tem sentido tomá-lo em pé, num desassossego, que isso é atitude de quem tá de passagem. Outra coisa: a servida é sempre da direita para a esquerda e o mais importante, a mão que serve e a mão servida, têm que ser sempre a mão direita, que senão é falta de respeito. Se você está totalmente impossibilitado de servir com a mão direita, humildemente reconheça: “Desculpa a mão”. Difícil??? Pois venha pra Amambai que aqui tudo há. Até time de tereré, você encontrará.
Dr. Odil Puques, advogado amambaiense










