16.7 C
Amambai
quinta-feira, 21 de maio de 2026

Paraguaio defende reforma agrária, em terras de brasileiros

2008-06-28 15:29:00


O Paraguai deve fazer a reforma agrária, passando por cima dos latifundiários, sejam eles paraguaios, brasileiros ou de qualquer outra nacionalidade. Nisto acredita Luis Aguayo, secretário-geral da Mesa Coordenadora Nacional de Organizações Camponesas (MCNOC) do Paraguai, que no momento mantém 28 fazendas invadidas pelo país, e que apóia o presidente eleito Fernando Lugo.

O Paraguai tem forte presença de brasileiros e descendentes, os chamados brasiguaios, muitos deles proprietários de fazendas. Este é mais um fator, ao lado da polêmica sobre a renegociação do Tratado de Itaipu, que leva parte dos paraguaios a acreditar que o Brasil exerça imperialismo em seu país.

A renegociação do tratado, por meio do qual o Brasil e o Paraguai construíram e operam conjuntamente a hidrelétrica, foi uma das principais bandeiras da campanha eleitoral do ex-bispo Fernando Lugo, presidente eleito em abril que assume o cargo em 15 de agosto. Lugo afirma que o Paraguai espera receber um "preço justo" pela energia que lhe corresponde na usina, mas que vende ao Brasil por não aproveitá-la.

O “imperialismo brasileiro”, ao qual já houve referências até no principal diário do país, o "ABC Color", levou a cenas como a queima, no mês passado, da bandeira do Brasil em manifestação camponesa no departamento de San Pedro, onde a questão fundiária é latente. Parte dos brasiguaios, por sua vez, tem se armado para resistir contra eventuais invasões.

Mesmo com a vitória de Lugo, a MCNOC continua incentivando a ocupação de propriedades, em vez de aguardar que o novo presidente dê início à reforma agrária. Em entrevista ao G1, Luis Aguayo afirmou que “as ocupações são um movimento de luta que deve continuar até que se encaminhe um canal institucional que viabilize a reforma agrária no país”.

Segundo o líder sem-terra, as atuais ocupações são "pré-assentamentos". Aguayo espera que elas “se constituam como escolas de formação política e organizativa, de discussão dos modelos de assentamento, de produção e de capacitação técnica”.

Em maio, trabalhadores rurais de San Pedro anunciaram que preparavam a ocupação de 70 propriedades de agricultores brasileiros que cultivam soja. Eles acusavam os fazendeiros de destruir bosques e contaminar o ambiente com produtos químicos ilegais.

Antes, em março, em episódios para os quais não havia provas imediatas de ligação com movimentos camponeses, um fazendeiro brasileiro foi morto a tiros por desconhecidos em emboscada numa estrada do departamento de San Pedro, e um grupo armado incendiou um depósito com máquinas e equipamentos agrícolas de um produtor brasileiro de soja no departamento de Concepción.

O fazendeiro era acusado de fumigar seus cultivos com produtos não permitidos, e atribuiu a ação a camponeses que o denunciaram em várias ocasiões. No local do incêndio, havia papéis com a mensagem "terra para os camponeses paraguaios, aqueles que matam o povo com agrotóxicos pagarão desta maneira".

Bandeira – Sobre o episódio da queima da bandeira do Brasil por sem-terra no departamento de San Pedro, Aguayo afirmou que “respeita a decisão dos companheiros”. “Mas também discordo, porque a bandeira de um país não representa só os corruptos, os latifundiários, os mafiosos, mas representa também o povo honesto, democrático, patriota”.

A ocupação de terras de brasiguaios, afirma Aguayo, não tem relação com o fato de seus proprietários terem origem estrangeira. “Não estamos fazendo uma luta em uma linha racista. Pelo contrário, nós fazemos parte de uma grande coordenação latino-americana e mundial através da Cloc (Coordenação Latino-americana de Organizações do Campo)”, disse, reforçando que mantém “laços fraternos” com os sem-terra brasileiros.

“Nós exigimos que se respeite a Constituição, que fala claramente da reforma agrária e da incorporação dos trabalhadores no processo de desenvolvimento. No Paraguai o problema não é a falta de leis, mas sua aplicação. Sucessivos governos só se interessaram em utilizar o Estado para roubar, saquear e favorecer um pequeno grupo de privilegiados”, comentou Aguayo. No entanto, mesmo com a chegada de Fernando Lugo ao poder, o líder camponês não espera uma reforma agrária veloz. “Rapidamente não será feita, mas poderá se iniciar”, espera.

Leia também

Edição Digital

Jornal A Gazeta – Edição de 21 de maio de 2026

Clique aqui para acessar a edição digital do Jornal...

Enquete