2008-05-14 10:13:00
O trigo apresenta variações significativas de preços em diferentes partes de sua cadeia produtiva. Supermercadistas de Campo Grande estão pagando 68% a mais pelo fardo de 60 quilos do produto e o consumidor desembolsou 10,36% a mais no intervalo de um mês pela farinha de trigo. O pão francês já acumula alta de 29,59% desde o início do ano, passando da casa dos R$ 4 o quilo. A alta prejudica também quem precisa do trigo para produção e comercialização de alimentos.
No início do ano, o consumidor campo-grandense pagou a média de R$ 3,21 o quilo do pão francês, segundo o IPC/CG (Índice de Preço ao Consumidor de Campo Grande). Em abril, precisou desembolsar R$ 4,16 para comprar um quilo do pãozinho. O aumento relativo foi de 29,59%. Isso significa que o valor pago por cinco quilos de pão em abril seria suficiente para comprar 6,5 quilos em janeiro. É a primeira vez que o preço do pão rompe a casa dos R$ 4, desde que passou a ser vendido a quilo. De março para abril, o aumento foi de 25,30% – no terceiro mês do ano, o pão era vendido pela média R$ 3,32.
O IPC também aponta a majoração do preço da farinha de trigo. De março a abril, o produto deu um salto de R$ 1,93 para R$ 2,13 o quilo – variação de 10,36%. O preço do produto, segundo o IPC, desenha uma curva de novembro de 2007 a março deste ano, quando dispara para os R$ 2,13. Em novembro, a farinha de trigo era vendido pelo preço médio de R$ 1,92, subindo gradativamente até janeiro, quando atingiu o valor de R$ 2,01. O produto ficou com preço estável em março (R$ 2,00) caindo para o patamar dos R$ 1,90 em março.
De acordo com Celso Correia de Souza, coordenador do Nepes (Núcleo de Estudos e Pesquisas Econômicas e Sociais), responsável pela elaboração do IPC/CG, o comportamento do preço do trigo no último mês se relaciona à redução do estoque nacional, reflexo da política de restrição da exportação da Argentina. “O Brasil só tem estoque suficiente para atender a demanda interna até o final deste mês. Se a Argentina não normalizar a exportação do trigo para o Brasil, o aumento ao consumidor no mês de junho voltará a passar dos 10%”, projeta.
O comércio conturbado do trigo entre Brasil e Argentina é considerado o grande vilão da alta do produto e seus derivados. O país vizinho é o maior fornecedor de trigo ao Brasil. A restrição nas vendas tem levado os importadores brasileiros a adquirirem o produto de outras fontes, como Estados Unidos e Canadá. Essa migração faz com que o frete encareça o produto.
Chegando ao país mais caro, o trigo em alta provoca impacto nas pontas finais da cadeia produtiva. De acordo com o presidente da AMAS (Associação Sul-Mato-Grossense de Supermercados), Adeiton do Prado, os supermercadistas já estão pagando R$ 98 pelo fardo com 60 quilos de farinha de trigo. O produto era vendido, no começo do ano, por R$ 58, afirma Adeilton. A variação é de 68%. A saca, com 25 quilos do produto, era vendida por R$ 30 no início do ano e, neste mês, sai por R$ 50 – aumento de 66%.
Preços salgados – Não apenas o consumidor final sente no bolso a alta do trigo e dos seus derivados. Pessoas que trabalham com o produto como matéria-prima também têm prejuízos. É o caso da salgadeira Ilda da Luz Silva, 50. Sua margem de lucro foi cortada em 75%. Foi a saída que encontrou para não perder os clientes.
Para fazer pães, salgados e bolos, Ilda precisa desembolsar um valor maior na compra de ingredientes. “O pior é que não é só o trigo que está aumentando o preço. O óleo de soja também está muito caro”, reclama. Ela conta que pagava R$ 30 pela caixa com 20 litros de óleo. Na sua última compra teve que gastar R$ 67 para adquirir a mesma quantidade. Está pagando mais que o dobro pelo óleo.
Ilda da Luz produz uma média de 450 salgadinhos por dia. Para isso, precisa começar a trabalhar às 2 horas e só parar por volta do meio-dia. Antes da majoração dos preços do trigo e do óleo, Ilda tinha uma despesa de cerca de R$ 0,50 por salgado. Ela vendia o produto por R$ 0,90, tendo lucro de R$ 0,40. Hoje, Ilda calcula custo de R$ 0,90 por unidade.
Para não sofrer com a fuga dos velhos fregueses, a salgadeira vende cada salgado por R$ 1,00 ou R$ 1,10. A redução da margem de lucro de R$ 0,40 para R$ 0,10 corresponde a queda de 75%. “Para compensar, eu tenho que trabalhar muito mais para tentar vender mais”, diz, desolada.









