2008-01-06 17:29:00
São 4,8 mil policiais militares, jovens e “velhos de guerra” que estão sob o comando dele. Aos 51 anos, o bela-vistense, casado, pai de dois filhos, concede entrevista ao site Midiamax em meio a um ambiente inusitado: o cemitério Memorial Parque, onde no último dia do ano, uma segunda-feira de calor intenso, por volta das 14 horas, foi sepultada a subcomandante do Policiamento do Interior, Ana Neize Baltha, 42 anos, vítima de enfarto.
Devido à ocasião ele hesitou um pouco, mas, após o funeral, sob uma das árvores do local, considerou importante falar rapidamente com a reportagem sobre a expectativa frente à PM em 2008.
A conversa durou apenas 20 minutos. Orti estava com pressa. Mas o tempo foi suficiente para o comandante, que há 29 anos atua na segurança pública, falar o que pensa sobre a marginalidade e as lacunas do setor. A segurança pública é dona de R$ 577,3 milhões do orçamento estadual deste ano, sendo R$ 26,1 milhões recursos da União.
Diante de toda a problemática que envolve o setor, o comandante é enfático ao frisar que segurança pública não é só problema da polícia.
Firme, sem rodeios, admite a fragilidade da fronteira com o Paraguai e a Bolívia que ele chama de vias secas, por onde o crime organizado se fortalece literalmente “sem fronteiras”. Há um projeto de reforçar neste ponto nevrálgico a fiscalização. Um projeto ainda no papel.
Orti disse ao Midiamax que tinha esperanças da polícia encontrar o menino Luis Eduardo Martins Gonçalves, o Dudu, de 10 anos, desaparecido em Campo Grande, no dia 22 de dezembro. A promessa foi feita dia 31 de dezembro; até o dia da publicação da entrevista (6/01) o caso ainda não tinha sido solucionado.
Midiamax – Qual a expectativa da Polícia Militar para enfrentar a criminalidade e dar segurança à população?
Coronel Orti – A expectativa é muito positiva porque desde o meio do ano de 2007 o governo do Estado tem sinalizado com investimentos na área da segurança pública, tanto na PM (Polícia Militar) como na Civil (Polícia Civil) e no Corpo de Bombeiros, mas principalmente na PM. Nós já recebemos veículos este ano e temos autorizado concurso público para 1 mil soldados e temos também a aquisição de novos veículos para serem entregues em março. Com o recebimento destes meios poderemos prestar um serviço de segurança de mais qualidade para a comunidade.
Midiamax – Em Campo Grande quais são as áreas que o senhor considera mais perigosas em relação aos crimes de maior gravidade (latrocínios e homicídios)?
Coronel Orti –Na realidade a cidade toda está bastante equilibrada em matéria de policiamento. Ocorre que quando nós intensificamos o policiamento em determinada região o crime migra. Nós temos exemplos que fizemos operações em cima das linhas de ônibus que registravam assaltos a ônibus. A partir daí o crime migrou para as casas lotéricas. Fomos para as casas lotéricas e migrou para posto de combustível, depois para salão de cabeleireiro. Na realidade é uma busca constante do aperfeiçoamento. Na medida em que você ataca uma modalidade de crime, ele normalmente migra. E quando a gente consegue através da investigação retirar aqueles autores, diminui consideravelmente o que nós temos conseguido fazer junto com a Polícia Civil.
Midiamax – De que forma?
Coronel Orti – Naqueles crimes que nós não conseguimos fazer a prisão do infrator em flagrante, a Polícia Civil, no desenrolar das investigações, consegue identificar os autores e fazer a prisão.
Midiamax – Até que ponto pesa sobre os organismos da Segurança Pública a cobrança da população, já que há o entendimento de que não se combate a criminalidade só com policiamento, mas também com emprego, investimentos sociais e educação, por exemplo?
Coronel Orti – Existe uma sintonia, sim, entre as outras pastas. Ocorre que assumimos o governo no começo de janeiro de 2007 com algumas dificuldades estruturais recorrentes de uma série de fatores que não me compete julgar, mas que refletiu em dificuldades para todas as secretarias. Temos expectativas que para 2008, com essa conjunção de esforços com a saúde, da educação, da ação social, nós vamos conseguir em uma ação bastante integrada diminuir os problemas de segurança através da diminuição dos problemas sociais. Muitas vezes alguns crimes têm como motivação fatores sociais.
Midiamax – No caso das Moreninhas, na década de 80 a violência tomava conta do bairro. O que aconteceu ali para diminuir os índices e o que precisa acontecer para que as pessoas de todos os pontos da cidade possam viver com mais segurança?
Coronel Orti – É preciso, sobretudo, que a sociedade tenha consciência do papel dela. Segurança pública não é só problema de polícia. Houve nas Moreninhas uma mudança de conceito. A Constituição é clara quando ela diz que a segurança é responsabilidade de todos.
Midiamax – Como?
Coronel Orti – É preciso também que as famílias sejam reestruturadas ou se estruturem melhor. Nós temos casos de que as pessoas vão para o crime por causa da desagregação familiar. Então é preciso que as igrejas e associações façam também este trabalho de conscientização. Nós temos um programa muito forte que é o policiamento comunitário que envolve a comunidade e todo o segmento para fazer aproximar a polícia da comunidade e isso tem surtido efeito. Quando digo que nas Moreninhas houve uma mudança de conceito é porque eles viram que se cada um cuidar de seu filho, nós não vamos ter gangue.
Componentes de gangue são filhos de alguém, são componentes de famílias e quando essas famílias, elas por qualquer razão são desestruturadas e deixam os filhos aos cuidados da polícia, têm um complicador, mas quando as famílias se agregam, quando os clubes de mães conseguem trabalhar melhor essa questão, sem sombra de dúvidas temos uma diminuição na marginalidade. São mudanças de conceito que a sociedade tem que ter para entender que ela tem que se ajudar e não só a polícia, só o governo.
Midiamax – Muito se fala que a raiz do problema da segurança no Estado passa pela falta de policiamento na fronteira, porta de entrada do tráfico e contrabando de armas.
Coronel Orti – Nós temos na fronteira os locais que nós chamamos de vias secas, cidades que não têm obstáculos físicos para você passar de um país para outro. Normalmente é por ai que entra a droga, a arma e o contrabando. Mas temos um trabalho bastante forte em conjunto com as polícias civil e federal e também uma ação muito boa do DOF (Departamento de Operações de Fronteira) que é um departamento que atua com policiais civis e militares e que atua especificamente na região de fronteira. Temos um projeto junto à Secretaria de Segurança para ampliar esse efetivo não só do DOF, mas de todas as unidades da PM na linha de fronteira para fazer o combate de crime.
Midiamax – Hoje, qual o total do efetivo disponibilizado para a PM?
Coronel Orti – Temos um déficit de 2,5 mil solddaos. Nós vamos receber 1 mil e já vamos diminuir bastante este déficit, embora vamos perder alguns por aposentadoria, mas no projeto que nós fizemos junto com a Secretaria de Segurança até 2010 vamos zerar o déficit tendo uma segurança com bastante eficiência.
Midiamax – Temos em Campo Grande a Lei Seca, mas pelo número de acidentes envolvendo condutores embriagados, a impressão é que a legislação não vem sendo cumprida.
Coronel Orti – Na realidade a Lei Seca funciona e as pessoas envolvidas em acidentes não estão bebendo naqueles bares que têm que ser fechados nos horários de acordo com a lei. O problema é que alguns estabelecimentos podem funcionar desde que tenham guarda. Então o que precisa? Consciência do condutor do veículo que após ingerir bebida alcoólica não deve dirigir. Vou voltar naquela parte da família. Os pais têm que conhecer os filhos e alguns pais que também se embriagam e dirigem têm que saber o que é o certo e o que é errado porque senão vamos continuar nos fins de semana e época de festas acidentes com riscos de morte motivados por bebida alcoólica.
Midiamax – Coronel, um episódio em especial tem chamado a atenção da população. O caso do menino Luis Eduardo que está desaparecido desde o dia 22 de dezembro. A PM está auxiliando na procura?
Coronel Orti – Houve um descuido da família. Não é concebível que um menino de dez anos fique na rua após às 18 horas. É um descuido e com certeza uma família que não estava bem agregada e que a criança desapareceu a princípio misteriosamente. A polícia está fazendo todo seu esforço, temos as fotos e todos estão comunicados, mas não se conseguiu uma pista para saber quem foi a última pessoa que estava com ele, onde esteve. Todas essas situações ainda estão sendo investigadas. Tendo essas primeiras investigações com certeza eu acho que se consegue localizar o garoto.
Midiamax – O senhor tem esperança disso acontecer?
Coronel Orti – Eu tenho. Ninguém some misteriosamente. Ou ele saiu sozinho ou foi conduzido por uma outra pessoa para outro local. A gente deve conseguir localizá-lo.









