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terça-feira, 12 de maio de 2026

Traficantes constroem mundo subterrâneo na fronteira

2007-12-08 10:10:00

A abertura de túnel recortada no assoalho de um contêiner de transporte marítimo, aqui em Tecate, conduz a uma escavação em três pavimentos, ligados por escadas, a primeira de metal e as duas outras feitas com caixotes de madeira. O túnel se estende por cerca de 400 m para o sul e atravessa a fronteira com o México cerca de 15 m sob o solo, terminando em um edifício de escritórios pintado de azul do qual se pose avistar a cerca revestida de aço que marca a fronteira.

Com largura de cerca de 2 m e altura de 1,80 m, a passagem é iluminada por lâmpadas fluorescentes compactas (conectadas à rede elétrica mexicana), e tem apoio de vigas de madeira colocadas com cuidado e mantidas secas por duas bombas de água. As paredes são lisas, escavadas da rocha sólida, e demonstram sinais de engenharia competente e do uso de ferramentas profissionais de escavação.

Fardos de maconha envoltos em plástico, com peso total de 6,3 toneladas e valor de mercado de US$ 5,6 milhões, foram encontrados no contêiner e no trailer estacionado ao lado, o que deixa claro o propósito do túnel: o de servir como mais um corredor de contrabando entre os dois países. Localizado na segunda-feira em Tecate, este é o mais recente dos 56 túneis que atravessam a fronteira descobertos na região sudoeste dos Estados Unidos desde que a fronteira passou a ser mais vigiada e a cerca foi construída, em função dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

"Jamais me alarmo quando os descobrimos", disse um dos investigadores que comandam a força-tarefa de agências policiais que estava trabalhando na cena, terça-feira. "Mas me alarmo por talvez não estarmos descobrindo todos eles".

As autoridades acreditam que o reforço da vigilância na fronteira ajudou a conter o tráfego de imigrantes ilegais e permitiu que agentes façam mais apreensões de drogas. Mas eles reconhecem que o endurecimento nas medidas de proteção também está levando os traficantes de drogas a redobrar esforços para encontrar outros caminhos de passar a fronteira. E não se trata apenas de túneis.

Agentes de imigração em San Diego estão preocupados com uma série de barcos precários encontrados no ano passado ao largo das praias no condado de San Diego, alguns pouco depois do desembarque de imigrantes ilegais. Pessoas foram encontradas em espaços ocos criados sob os painéis de furgões e caminhões, e em posições perigosas na porção inferior de automóveis.

"É como apertar um balão", disse Michael Unzueta, agente do serviço de imigração e alfândega que comanda as operações da agência em San Diego. "O ar precisa sair por algum lugar".

Mas túneis agora vêm sendo descobertos com alarmante regularidade e muitas vezes sob os narizes de policiais. O de Tecate fica a um quarteirão de uma estação da Patrulha de Fronteira e ao lado de uma colina que agentes muitas vezes empregam como posto de observação do tráfego de imigrantes ilegais.

Em setembro, um veículo da Patrulha de Fronteira caiu em um grande buraco em San Luis, Arizona, a apenas 50 m da cerca de fronteira. Os agentes descobriram que o buraco era um trecho de túnel que havia desabado ainda em construção.

Um
total de 69 túneis como esses foram descobertos – 68 ao longo da fronteira sudoeste e o restante na fronteira com o Canadá, no Estado de Washington – desde que as autoridades começaram a manter estatísticas sobre eles, em 1990. Do total, 80% foram localizados, boa parte dos quais com base em denúncias de informantes, depois do 11 de setembro, quando o controle da fronteira foi significativamente reforçado. O mais longo deles, localizado no ano passado no distrito de Otay Mesa, em San Diego, tinha quase 800 m de comprimento.

Devido a preocupações com a possibilidade de que terroristas empreguem essa tática para contrabandear material radiativo e químico para os Estados Unidos, uma equipe militar verifica todas as passagens subterrâneas localizadas, mas não foram encontrados resíduos de materiais desse tipo.

A maioria dos túneis são construções precárias, escavados rapidamente e provavelmente por pequenos contrabandistas cuja intenção é contrabandear pessoas ou pequeno volume de drogas para o lado oposto da fronteira. Mas mais de uma dúzia deles eram projetos mais elaborados, como o de Tecate, com iluminação, drenagem, ventilação, sistemas de transporte de carga e outros traços que indicam investimento pesado de parte dos cartéis de drogas. Engenheiros foram claramente utilizados na construção desses corredores.

O túnel de Tecate atraiu atenção especial porque apenas horas depois de sua descoberta, o vice-chefe de polícia na cidade irmã, Tecate, México, foi assassinado em um tiroteio em sua casa, aparentemente vítima de um ataque dos cartéis. O vice-chefe de polícia havia ajudado a encontrar o terminal mexicano da passagem.

Um agente da Patrulha de Fronteira fazia sua ronda de rotina e descobriu o túnel quando seu cão farejador reagiu ao cheiro de maconha a algumas centenas de metros de distância. Quando ele entrou no contêiner, o agente disse ter visto um homem, armado de revólver, descer para o túnel. Como os demais túneis localizados, ele será selado na fronteira, e sua porção em território norte-americano será cimentada completamente.

Ainda que poucas pessoas tenham se tornado alvo de processos devido à construção desses túneis, uma lei federal implementada este ano nos Estados Unidos torna crime o projeto e construção de passagens desse tipo.

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