2007-10-24 14:13:00
Apesar de a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) não divulgar dados exatos sobre suicídios nas comunidades indígenas Guarani Kaiowá e Nanhandeva, no Mato Grosso do Sul, especialistas ouvidos pela Agência Brasil consideram que a situação na região é alarmante e exige soluções para um enfretamento mais eficaz do problema. Extra-oficialmente, falam em uma média anual de 50 casos na região. Os estudiosos do tema estão reunidos em Brasília na 1ª Conferência Internacional de Saúde Mental Indígena, que começou segunda-feira (22) e vai até quinta-feira (25).
A principal dificuldade, segundo os especialistas, é a diversidade dos fatores que estimulam os suicídios entre os índios. Desentendimentos familiares, disputas de poder e de terra nas comunidades, feitiços, desilusões amorosas, alcoolismo e poucas perspectivas de crescimento social são algumas das causas mais citadas.
Segundo o consultor da Unesco no Brasil Fábio Mura, existe um conflito entre o controle tradicional exercido pelas famílias e as aspirações dos jovens indígenas. “Diante de tantas contestações, muitos deles têm caminhado para tentativas ou concretizações de atos suicidas”, explicou Mura.
Como a cultura indígena associa o suicídio a agentes externos, Mura também considera necessária uma preocupação com a purificação espiritual do ambiente após um suicídio. Caso contrário, outras pessoas da família podem ser influenciadas. O trabalho seria feito por rezadores especializados, com legitimidade reconhecida pelos índios.
O alto consumo de álcool nas aldeias, aponta o consultor, pode promover efeitos distintos sobre a intenção dos índios em se suicidar. “Tanto pode inibir e adiar um ato ou servir para dar a coragem necessária para concretizá-lo”, analisou Mura.
Outro aspecto que agrava as tensões é a forte restrição territorial das reservas de Mato Grosso do Sul, que provoca concentração das populações indígenas na região. “Na Reserva de Dourados, por exemplo, com 3.560 hectares, vivem aproximadamente 11 mil indígenas. Do ponto de vista tradicional, uma comunidade de 200 índios aliados entre si deveria viver em um espaço de dez mil hectares”, disse Fábio Mura.
O psicólogo da Funasa Walter Martins, que nasceu em uma aldeia Kaiowá e atende cinco comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul, compara a reserva atual a uma grande favela. Com a experiência de quem já teve três primas adolescentes que se suicidaram, ele considera a falta investimentos sociais na comunidade, voltados especialmente para a formação dos jovens, um fator que estimula os suicídios.
Martins defende a adoção de projetos de preparação profissional nas aldeias. “Os jovens não tem a expectativa de um futuro melhor. Meus amigos dizem que não conseguem nada na cidade porque não puderam estudar na aldeia. Eles se vêem num beco sem saída”, afirmou.
Para Fábio Mura, da Unesco, os programas de saúde mental para indígenas a serem desenvolvidos pelo Governo Federal devem fortalecer o caráter multidisciplinar das equipes, com a presença de médicos, enfermeiros, curandeiros e rezadores. “É preciso vencer o preconceito ocidental e a desconfiança indígena, com métodos interligados aceitáveis por ambas as partes”, defendeu Mura.
Segundo a Funasa, a população indígena brasileira é estimada em mais de 400 mil pessoas, que pertencem a cerca de 215 povos e falam 180 línguas identificadas.









