2007-07-26 05:22:37
Vilson Nascimento
Indígenas guarani-kaiowá e guarani-ñhandeva de 22 aldeias da região sul de Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai emitiram, nessa quarta-feira (25) uma nota anunciando para a próxima segunda-feira (30) o bloqueio de vários trechos de rodovias na região.
A manifestação dos indígenas, que lutam desde o início do mês de maio para reconquistar a Administração Regional da Funai (Fundação Nacional do Índio) de Amambai, desativada pela Funai de Brasília por conta da criação da Administração Regional para o Conesul em Dourados, foi realizada depois que o administrador regional de Dourados, Eliezer Cardoso veio a Amambai na manhã dessa quarta-feira onde manteve uma reunião com o prefeito Sérgio Barbosa e vereadores do município, mas teria, segundo os indígenas, se recusado a conversar com as lideranças indígenas que aguardavam no prédio onde funcionava a Administração Regional que ainda está alugado ao órgão federal.
“Os cerca de 20 mil índios atendidos pela Administração Regional da Funai de Amambai estão a mais de 70 dias sem receber qualquer assistência, documentações deixaram de ser emitidas, lavouras não foram plantadas e crianças e idosos estão morrendo a mingua nas aldeias de desnutrição e por falta de atendimento sem que a Funai e as autoridades competentes tomem providências”, disse o capitão da Aldeia Amambai Rodolfo Ricarte ao denunciar pelo menos três mortes de crianças por desnutrição na Aldeia Taquapery em Coronel Sapucaia nos últimos 60 dias por falta de alimentos e assistência da Fundação Nacional do Índio.
“Temos que dar um basta nessa situação. Aclamamos mais uma vez ao presidente da Funai, Márcio Augusto Meira e as demais autoridades dos municípios da região atendida pela AR, autoridades estaduais e federais para que intervenham, caso contrário teremos que tomar medidas drásticas para chamar a atenção e mostrarmos para a sociedade branca a situação de calamidade que estamos passado, realizando ações como essa de bloquear estradas, por exemplo”, disse o cacique.
As lideranças indígenas, além de acusar a Administração Regional do Conesul de omissão por não estar prestando qualquer assistência às aldeias da região de fronteira, até então sob sua jurisdição, também classificam o presidente da Funai Márcio Meira como “mentiroso” já que, segundo os indígenas, durante a visita de uma comissão formada por lideranças da região a Capital Federal para discutir a reativação da unidade gestora da Funai em Amambai, considerada pelos indígenas como em localidade “estratégica” para atender todas as aldeias da região, o presidente teria assinado uma ata se comprometendo a devolver a Administração Regional para Amambai em menos de um mês, fator que não aconteceu. Confira na íntegra a carta elaborada pelas lideranças indígenas.
Carta das lideranças indígenas Guarani Kaiowa
Para: Presidente da Funai
Deputados Estaduais de MS
Deputados Federais de MS
Senadores de MS
Prefeitos Municipais de MS
Vereadores de MS
As lideranças indígenas Guarani e Kaiowa das 22 terras indígenas do sul do Estado de Mato Grosso do Sul. Mais uma expressamos nosso indignação com o modo em que estamos sendo tratados pela funai, Órgão que deveria dar assistência aos povos indígenas.
Há exatamente 72 dias vivemos em clima de desilusão e de incertezas, desde o que o presidente da funai resolveu transferir nossa administração para Dourados. Não temos mais assistência de modo algum. Tivemos o compromisso feito em aonde o presidente da funai se compromete com nós para a reabertura da administração, só que isso até hoje não aconteceu.
Fizemos várias tentativas com as autoridades municipais, estaduais e federais para garantir nosso interesse e direito constitucional, mas só ouvimos mentiras e promessas. Parece que estão brincando com nosso povo. Não sabemos mais em quem confiar. Estamos praticamente abandonados pela funai.
Hoje tivemos mais uma decepção por parte do chefe de dourados, Sr. Eliezer Cardoso que marcou com o prefeito e vereador uma reunião na cidade de Amambaí, aonde recusou o convite das lideranças para uma conversa no prédio da funai, dizendo que para ele não existe lideranças e que não tem compromisso com nenhuma liderança então não vai conversar com nenhuma e que seu compromisso era com o prefeito e vereador. Oras se ele é representante da funai deve sim obrigação para os índios os quais são o motivo da existência da funai e ele esta sendo pago para nos dar assistência.
Pedimos encarecidamente o apoio de todos para novamente reativar a administração de Amambaí, que fica estrategicamente centralizada para atender as 22 terras indígenas. Necessitamos de muitas ações em atendimentos as nossas comunidades, hoje com falta de documentos, de encaminhamento de benefícios, de apoio jurídico, de apoio a construção de lavouras, dentre outras ações.
Após muitas lutas para não sermos mais usados e abandonados é que conquistamos a ampliação da funai em Amambaí e com ela tivemos muitas conquistas como as terras do Jarará, do Jatayvary, Takwaraty|yvyguarussu potrero guassú, Jaguapiré, Cerrito, Sete Serros, Jaguari, Guassuty, ñhanderú Marangatú, Sucurui, Arroio Cora, Sombrerito, Yvy-Katú.
Comunicamos que não aceitaremos funcionar somente um pólo porque não vai atender a nossa necessidade. Comunicamos também que a partir do dia 30 deste mês estaremos mobilizando nosso povo para interditar as rodovias estaduais e municipais se não formos atendidos a nossa reivindicação.
Amambai-MS 25 de julho de 2007











