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quinta-feira, 14 de maio de 2026

O Peso da Imagem: O Valor Além da Utilidade – Por Pr. Werley Scardini

Ensaio Pastoral | Para quem carrega a pergunta mais difícil

A pergunta “como faço para parar de me odiar?” geralmente nasce de um tribunal interno onde o juiz usa réguas estrangeiras.

Para muitos — especialmente aqueles que carregam o peso do isolamento, da depressão ou da dificuldade de se encaixar num mundo que não foi desenhado para eles — a existência se apresenta como um sistema de engrenagens no qual eles sentem ser a peça que trava o mecanismo. O ódio por si mesmo surge quando confundimos utilidade com valor.

Este texto não pretende desfazer essa confusão com facilidade. Ela é profunda, enraizada e merece ser levada a sério. O que se pretende aqui é algo mais modesto: oferecer algumas verdades que, talvez, possam começar a soltar os parafusos desse tribunal.

I. A Dignidade da Imagem — e Onde Ela Mora
“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Gênesis 1:27

Essa “imagem” — o que os teólogos chamam de imago Dei — não é uma capacidade técnica. Não é a habilidade de gerir planilhas, manter conversas triviais, interpretar códigos sociais com fluidez ou cumprir expectativas de produtividade. Deus não nos concedeu dignidade porque somos eficientes.

Se o valor humano dependesse da funcionalidade, então o doente, o idoso, o recém-nascido e o exausto emocionalmente perderiam sua dignidade justamente nos momentos em que mais precisam dela. Isso seria absurdo — e, mais do que absurdo, cruel.

A imagem de Deus não é um relatório de desempenho. É um selo ontológico — algo que pertence ao ser, não ao fazer.

Ela aparece na capacidade de amar, mesmo que de forma silenciosa. Na sensibilidade que percebe o que os outros não percebem. Na honestidade de quem se recusa a fingir que está bem. Na profundidade de quem sente mais do que consegue expressar. O valor da vida humana não aumenta nos dias de força nem diminui nos dias de paralisia.

II. A Solidariedade do Sofrimento — Você Não É o Erro
“Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora.” Romanos 8:22

No isolamento, nasce frequentemente a sensação de que o sofrimento é uma falha exclusiva. A Escritura a desfaz com uma palavra: toda. Toda a criação geme.

A dor não é evidência de que algo deu errado em você. É evidência de que você vive neste mundo. O autismo, a depressão e a ansiedade não tornam alguém menos humano; são formas específicas de habitar uma fragilidade que é universal. Você não está fora da realidade. Você está dentro dela — de um jeito muito honesto.

III. A Teologia do “Basta” — Quando a Alma Adoece
“Basta, Senhor; toma agora a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais.” 1 Reis 19:4

O colapso de Elias não veio da fraqueza de caráter, mas do esgotamento de alguém que sustentou por tempo demais uma imagem que não correspondia ao que sentia. A resposta imediata de Deus foi reveladora: descanso, comida e presença.

Deus reconhece a limitação humana. Há momentos em que o cansaço se torna tão profundo que até existir parece pesado. Isso não é falta de fé; é ser humano. Deus conhece nossa estrutura de barro e não está surpreso com ela.

IV. O Lamento Canônico — A Dor Que Não Precisa de Resolução
“Pois a minha alma está cheia de males… as trevas são o meu único companheiro.” Salmos 88:3,18

O Salmo 88 começa na escuridão e termina nela. A presença desse salmo no cânon bíblico diz algo que a espiritualidade apressada raramente admite: existe um lamento que não precisa ser resolvido para ser legítimo.

Deus recebeu esse salmo. Isso significa que a dor crua e irresolvida tem lugar diante do Criador. Você pode chegar exatamente onde está. As trevas não precisam ser disfarçadas para que Deus esteja presente nelas.

V. Cristo Entre os Cansados — Deus Que Entrou na Dor
“A minha alma está profundamente triste até à morte.” Mateus 26:38

Em Jesus Cristo, Deus não observou a dor humana de longe. Ele entrou nela. No Getsêmani, Jesus descreveu sua própria alma com uma angústia que paralisa. Ele conhece, por experiência, o peso da aflição humana. Ninguém sofre diante de um Deus que não conhece o que é sofrer.

VI. O Sentido Que Antecede os Resultados
Viktor Frankl sobreviveu aos campos de concentração nazistas e percebeu que o que sustentava o homem não era a produtividade, mas o sentido. Ele observou que a vida humana possui significado antes mesmo de produzir resultados.

O amor de Deus não é prêmio por eficiência. E o amor verdadeiro de uma família também não nasce da utilidade de alguém, mas do reconhecimento de sua existência como preciosa. Você não precisa se consertar para merecer ser amado.

Reflexão Final

“Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó.” Salmos 103:14

Deus conhece a fiação da mente humana. Conhece a exaustão que não tem nome e a frustração de quem sente que sua inteligência não se encaixa nos moldes do mundo. Ele não está decepcionado com a lentidão do processo. Não existe uma versão futura e “funcional” de você que precise chegar primeiro para que Ele o ame.

Este texto não resolve tudo. A dor continua real. Mas talvez — apenas talvez — algumas das réguas estrangeiras usadas por esse tribunal interno comecem a parecer o que sempre foram: estrangeiras.

Escrito com amor e com a mesma pergunta.
Pr. Werley Scardini

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