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terça-feira, 9 de junho de 2026

Aprenda como ter amizade com o chefe sem prejudicar o trabalho

2012-05-22 13:18:00

A jornada de trabalho dos brasileiros dura, em média, oito horas a cada dia. É inevitável, portanto, que se criem laços afetivos no ambiente institucional, inclusive com o chefe do setor. Porém, a amizade entre gestores e subordinados pode não ser bem recebida pelo restante da equipe. Não há como definir a melhor maneira de lidar com relacionamentos pessoais no trabalho, mas é certo que eles não devem influenciar a tomada de decisão dentro da empresa. Especialistas enfatizam que a primeira regra é evitar que aspectos pessoais e profissionais se confundam. Além disso, o amigo deve estar preparado para receber críticas do gestor e, em algumas situações, até ser mais cobrado.

Quem vai definir os limites da relação é o chefe, pois dele se esperam ações compatíveis com o posto, entre elas a boa convivência com a equipe. “As empresas solicitam que os gestores tenham boa capacidade de se relacionar com os seus subordinados, equilibrando aproximação e distanciamento”, afirma a psicóloga Juliana Bertoletti, diretora de uma empresa de desenvolvimento de pessoas. Segundo ela, o estreitamento do vínculo entre os funcionários depende da personalidade de cada um e é preciso tomar cuidado para que a amizade não atrapalhe o trabalho ou cause constrangimentos. “É importante que os envolvidos avaliem seu comportamento, ponderando se o relacionamento amistoso está invadindo o ambiente profissional e se há informalidade ou favorecimento devido a essa relação, o que pode gerar um grande desconforto entre os colegas.”

A auxiliar administrativa da União Educacional de Brasília (Uneb) Sonete Rodrigues, 28 anos, sente certa resistência dos colegas por causa de sua proximidade com a supervisora do setor, Sheila Lopes, 28. As duas são amigas há dois anos, desde que começaram a trabalhar juntas na central de atendimento da instituição de ensino superior. “Como nós temos uma intimidade muito grande, às vezes as pessoas acham que tudo é mais fácil para a Sonete, mas não é assim, eu cobro muito mais dela”, diz Sheila.

Com essa exigência maior, Sheila demonstra liderança diante da equipe. A coach Isabel Macarenco explica o quanto isso é relevante para o ambiente profissional: “Se o chefe for líder, não importa a relação de amizade. Ele vai cobrar ainda mais do amigo, porque se tornou importante perante o grupo que tal funcionário esteja preparado para assumir responsabilidades com autonomia real”. De acordo com a especialista, quando fica claro no cotidiano da gestão que o chefe tem potencial de liderança, comunicação e conhecimento na área de atuação, não há motivos para que suas decisões sejam questionadas.

Não esconda
Para Luiz Victorino, professor de recursos humanos no Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), a amizade entre chefe e subordinado não é um problema e, dependendo da cultura da empresa, ela deve até ser demonstrada, jamais escondida. “Você não é proibido de ser amigo de ninguém”, atesta. Victorino sugere que as discussões sobre o trabalho não saiam do ambiente institucional, pois quem não tem o mesmo relacionamento com o gestor pode ser prejudicado. É o que garantem fazer as amigas Sheila e Sonete. “A Sheila nunca conversa comigo sobre as outras pessoas que lidera. E eu, por um motivo de ética, também não pergunto, apesar de ficar curiosa. Acho melhor não saber”, conta a auxiliar administrativa.

Acesso facilitado
No ano passado, Pedro Henrique Paiva, 26 anos, foi convidado a gerenciar o estacionamento do Taguatinga Shopping e passou a ser chefe de um amigo, José Roberto Paiva Costa, 36, auxiliar administrativo. O sobrenome em comum é só coincidência, mas não é a única coisa que os dois compartilham. Nos fins de semana, jogam futebol juntos e vão a churrascos na casa de outros colegas. José nunca tinha trabalhado com um chefe amigo e acredita que isso melhora o desempenho. “O acesso à pessoa é mais fácil. Quando você tem alguma dificuldade, você chega e conversa”, relata. Pedro Henrique destaca que o respeito e o foco na gestão do trabalho são essenciais. “Nós trabalhamos juntos para alcançar o objetivo da empresa. É importante ser imparcial nas decisões.”

Como José Roberto já trabalhava no setor há mais tempo, não houve questionamentos quanto à sua posição na empresa. Porém, nos casos em que a amizade começou antes da contratação, a desconfiança sobre o favorecimento no processo seletivo pode aparecer. “Um profissional amigo deve passar pela aprovação de outros membros da organização, em posição superior à do chefe, ou de um profissional de recursos humanos”, diz Isabel Macarenco. O que se busca no mercado de trabalho hoje, segundo a coach, são pessoas capazes de agir com criatividade, iniciativa e autonomia. “Quem tiver essas competências será bem-vindo e, com o tempo, mostrará suas capacidades.”

Foi isso o que aconteceu com Soraya Lacerda, 31 anos, e Fabiani Christine, 34. Elas são amigas desde 2007, mas começaram a trabalhar juntas há pouco mais de dois meses. Fabiani é dona da papelaria personalizada Dot Paper. Ela precisava de alguém para ajudá-la com estratégias de comunicação e divulgação da marca. “Muitas pessoas me procuraram para ocupar esse cargo. Eu a escolhi não por ser minha amiga, mas pela competência e pelos requisitos que ela preenchia”, completa. O convite para assumir o cargo de gerente de comunicação e marketing da papelaria foi feito pela empresária durante a festa de aniversário da filha de Soraya. O resultado de trabalhar com a amiga é muita diversão durante o expediente. A diferença é que, agora, elas precisam separar o lado profissional do pessoal. Apelidos carinhosos, por exemplo, ficam para as horas de lazer, quando costumam sair para passear com os filhos.

Sem interferências no trabalho
A psicóloga Juliana Bertoletti explica que, do ponto de vista emocional e afetivo, é difícil ser subordinado do amigo. Por isso, o relacionamento profissional precisará ser avaliado e discutido com os envolvidos. As dicas a seguir ajudam a definir limites para que o trabalho não interfira na amizade e vice-versa.

Seleção
O processo seletivo deve ser aberto e claro para toda a equipe, proporcionando situações que comprovem a competência do novo contratado. Outros funcionários devem participar da escolha.

Cobrança
A amizade deve aumentar a preocupação do gestor em deixar claro para a equipe quais são as responsabilidades de cada um e o que se espera deles em termos de resultados.

Promoções
Devem ser pautadas pelo conjunto de competências e qualificações necessárias para o cargo. A empresa deve ter um programa de gestão de pessoas para servir como guia nesses casos.

Limites
Estabelecer limites para a relação profissional é prerrogativa do chefe. Ele pode fazer críticas ao trabalho do amigo, atender ou não a pedidos de aumento ou promoção, e até demitir.

Liderança
O chefe tem de estar consciente do poder que possui. Precisa fugir do estilo arrogante e definir objetivos pelos quais todos são desafiados. Assim, o que importa são as competências de cada um.

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