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terça-feira, 30 de junho de 2026

Coluna Periscópio “Faltou Bom Senso” por Antonio Luiz

2009-03-13 10:49:00

Falar de religião é sempre muito perigoso, até porque, muitas vezes, as pessoas não entendem ou fingem não entender o que se pretende esclarecer.

A intolerância religiosa sempre foi, e acho que sempre será, uma das molas propulsoras das guerras e outras barbaridades cometidas em nome de Deus. Vejam só, o Único que deveria ficar longe dessas questões por sua divindade e magnanimidade acaba tornando-se o motivo principal das principais discórdias que já existiram desde que o Mesmo criou o universo.

Em todas as épocas houve perseguições, guerras e conflitos causados por diferenças religiosas entre todos os credos. Segundo os historiadores, noventa por cento dos conflitos que o mundo presenciou tiveram origem religiosa. Com isso, não quero afirmar que a religião é a causadora dos males da humanidade. Não. Os causadores dos males que afligem a humanidade somos nós, os humanos, que interpretamos erroneamente o que é liberdade de credo, de expressão e até de costumes. Esse século XXI iniciou-se sob o signo do terror causado por uma das principais religiões do planeta, com quase dois milhões de fiéis que, em sua maioria absoluta, são contra os atos praticados por essa insensata Jihad, a tal “guerra santa” que os líderes do Islã vivem pregando, sobretudo contra cristãos.

Eu fui criado na Igreja Católica Apostólica Romana, mas não sou praticante. Respeito todas as outras religiões, de Evangélicas a Budista ou Messiânica. Já frequentei alguns desses templos, inclusive religiões pouco conhecidas, como a Marikari. Acredito em Deus, mas não sou de orar.

Ou seja, já tive, no mínimo, a curiosidade de tentar entender, através de religiões diversas, a minha própria religião. Não cheguei a nenhuma conclusão. E, exatamente por isso, não frequento mais qualquer tipo de culto e continuo respeitando e até apoiando quem tem a fé que eu não consigo ter. O máximo que faço em matéria de religião é, de vez em quando, rezar um Pai Nosso, que por sinal é uma oração comum a todas as religiões cristãs.

Na semana passada, a Igreja, que teoricamente seria a minha, viu-se diante de um fato que revoltou todos, e aí não importa de qual linha religiosa, e conseguiu que esse fato se tornasse pior ainda. É o caso da menina pernambucana, de 9 anos, de 33 quilos e 1,36 de altura, estuprada pelo padrasto e que ficou grávida de gêmeos, com riscos evidentes à sua saúde e inclusive de vida. Algo estarrecedor. Mas o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, transformou a história num espetáculo ainda mais constrangedor, interferindo de forma truculenta e espetaculosamente exibicionista, ainda que tenha obedecido ao Código Canônico – o conjunto de regras que regem o catolicismo. A questão é que a criança violentada, nesse momento, perdeu importância para a Igreja, que não lhe vê serventia para aparecer na mídia. A igreja, tão ciosa com os fetos inviáveis, deixa à própria sorte uma criança violentada e sua mãe, agora excomungada pelo risível arcebispo.

A situação chegou a tal ponto, que a mãe da garota, chocada e traumatizada pelos fatos e circunstâncias, ainda teve que fugir do hospital onde a criança estava inicialmente internada e buscar abrigo noutra unidade médica, para fugir do assédio do arcebispo voraz por publicidade, que insistia em abordá-la, sem que esse fosse o seu desejo.

Apesar de discordar, posso entender que a Igreja condene o aborto. Mas esse era um caso especialíssimo, envolvendo estupro em uma menina de apenas nove anos.

O que não consigo entender é por que estão humilhando e fazendo sofrer ainda mais a mãe da menina grávida, já condenada a um drama familiar – um sofrimento que se estende para a garota, que fica como filha de uma excomungada. Quem conhece a religiosidade do interior do Nordeste sabe o peso disso.

Todos nós sabemos – recentemente tivemos o exemplo do padre Lancelotti – quantos sacerdotes pedófilos foram desmascarados nos últimos anos. Não me lembro de ter havido uma punição sequer a esses monstros de batina. No entanto, quem salvou a vida da menina foi excomungado. Comentário da diretora do Centro Médico onde foi realizado o aborto: “Graças a Deus, fui excomungada por ter feito a coisa certa”. Até eu gostaria e teria a honra de ser excomungado por esse ato.

Faltou aí não só bom senso, mas humanidade. Duvido que essa seja a opinião da maioria dos católicos.

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