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sábado, 16 de maio de 2026

Periscópio “Vim para Pasárgada” por Antonio Luiz

2008-04-19 10:57:00

Vim para Pasárgada
Há alguns anos, publiquei numa mensagem a poesia “O Rio da Minha Aldeia”, de Fernando Pessoa. Era aniversário de Amambai e eu quis prestar uma homenagem à cidade que me acolheu e que escolhi para – assim espero – terminar meus dias.

Sinceramente, quando vim para cá, a convite do meu primo, Paulo Penteado, que Deus o tenha, não esperava que fosse gostar tanto de uma cidadezinha nos cafundós do Mato Grosso do Sul, já que eu vinha da cosmopolita Rio de Janeiro, cidade invejada por todas as outras cidades, pelas suas belezas naturais, mas ao mesmo tempo temida por sua extrema violência. Seja como for, Amambai me surpreendeu pela simpatia de seus moradores, pela hospitalidade e acima de tudo, por sua solidariedade.

A poesia de Pessoa dizia que “o maior rio do mundo é o que passa na minha aldeia”, numa alusão de que tudo que é maior está na minha cidade.

Nesta semana estou completando quinze anos vivendo em Amambai. Dizem os cronistas esportivos que quando o jogo é bom, o tempo passa depressa. Comigo é a mesma coisa.

Parece que foi ontem que cheguei carregado de malas, dei algumas aulas de inglês no CCAA do meu primo Guto e com ele me associei no Gula Gula – lembram-se? Pois é, meu casamento com Amambai está comemorando Bodas de Cristal e eu tenho muito ainda a retribuir.

Pensei em colocar toda a “Vou-me Embora Prá Pasárgada”,  cidade imaginária do poeta Manuel Bandeira, mas receio que seria mal interpretado. Amambai é a minha Pasárgada; era quase isso que eu pensava quando me mudei. Por ser uma obra escrita por um dos maiores  poetas brasileiros, sempre é bom lembrar que há uma certa licença poética e, evidentemente, eu não vim atrás de prostitutas ou de alcalóides, mas  de felicidade. Aqui vai o poema: Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei/ Vou-me embora pra Pasárgada/ Aqui eu não sou feliz/ Lá a existência é uma aventura/ De tal modo inconseqüente/ Que Joana a Louca de Espanha/Rainha e falsa demente/ Vem a ser contraparente/ Da nora que nunca tive/ E como farei ginástica/ Andarei de bicicleta/ Montarei em burro brabo/ Subirei no pau-de-sebo/ Tomarei banhos de mar!/ E quando estiver cansado/ Deito na beira do rio/ Mando chamar a mãe-d’água/ Pra me contar as histórias/ Que no tempo de eu menino/ Rosa vinha me contar/ Vou-me embora pra Pasárgada/ Em Pasárgada tem tudo/ É outra civilização/ Tem um processo seguro/ De impedir a concepção/ Tem telefone automático/ Tem alcalóide à vontade/ Tem prostitutas bonitas/ Para a gente namorar/ E quando eu estiver mais triste/ Mas triste de não ter jeito/ Quando de noite me der/ Vontade de me matar/— Lá sou amigo do rei —/

Terei a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei/ Vou-me embora pra Pasárgada.

A título de ilustração, Manuel Bandeira usou o nome Pasárgada que era uma cidade da antiga Pérsia e é atualmente um sítio arqueológico na província de Fars, no Irã, situado 87 km a nordeste de Persépolis. Foi a primeira capital da Pérsia Aqueménida, no tempo de Ciro II da Pérsia, e coexistiu com as demais, dado que era costume persa manter várias capitais em simultâneo, em função da vastidão do seu império: Persépolis, Ecbátana, Susa ou Sardes. É hoje um Patrimônio Mundial da Unesco, segundo informa a Wikipédia.

Quando fiquei doente, doença séria, o apoio que recebi dos amambaienses foi incrível e decisivo para minha cura. Desde ajuda financeira até a facilitação do meu tratamento eu devo às  pessoas de Amambai.

Aqui também encontrei a minha outra metade. Aqui conheci minha mulher, a  Sônia, que é catarinense e também escolheu Amambai para viver. Não deu muita sorte casando-se com um “coroa” como eu, mas acho que no frigir dos ovos, somos felizes.

Agora mesmo, passo por uma fase um pouco difícil quanto à saúde, mas também não me faltaram os amigos, os funcionários municipais, os médicos, enfim todos me ajudaram.

Talvez esse seja o texto mais piegas que já escrevi, mas foi uma maneira de agradecer a todos os que têm convivido comigo nesses últimos quinze anos.

Não nasci em Amambai, mas sou um amambaiense orgulhoso por ter encontrado minha Pasárgada. E daqui eu não saio!

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