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sábado, 9 de maio de 2026

Uma viagem às origens de Hugo Chávez

2008-01-20 12:05:00

O chavismo não nasceu em Barinas, Estado venezuelano de 624 mil habitantes onde Hugo Rafael Chávez Frias cresceu e forjou seu ideário esquerdista e revolucionário. É ali, porém, entre as montanhas circundadas pelo Rio Santo Domingo, que o fenômeno político do incendiário presidente da Venezuela encontrou seu mais bem-acabado resumo.
Barinas, a capital, é dividida como o país governado por seu filho ilustre. Logo na descida do aeroporto um cartaz saúda o visitante: "Terra de contrastes".

A frase ilustra o cotidiano da terra natal de Chávez – um Estado governado desde 1999 por seu pai, Hugo de los Reyes Chávez, um octogenário professor. A arquitetura é horizontal, com os escassos prédios limitando-se a cinco andares e com muitas casas simples, de fachada pequena e poucos cômodos. Fulgurantes obras governamentais, como a pavimentação de rodovias no interior e a ampliação do estádio local, são vizinhas de ruas infestadas pelo odor do esgoto a céu aberto. Devido ao calor intenso durante todo o ano, o mau cheiro torna-se ainda maior.

O comércio é limitado a pequenos magazines e armazéns. Nas ruas, há ambulantes vendendo queijo, peixe e carne de uma espécie de roedor curtida no sal, como se fosse charque. Ao longo dos 50 quilômetros que ligam Barinas a Sabaneta, a cidade natal do presidente, há dezenas de outdoors de Chávez e do pai governador.

A estrada é de causar inveja às rodovias brasileiras: a autopista General José Antônio Paes é bem sinalizada e tem o asfalto perfeito.
– O material asfáltico é barato, por conta do petróleo – justifica o motorista Julian Burgos (a Venezuela tem uma das maiores reservas mundiais do produto).

Barinas é um Estado agrícola, cujo projeto mais ambicioso é a construção, no município de Sabaneta, de uma usina estatal de açúcar. As pequenas granjas de beira de estrada, que sobrevivem da venda de mel, são cada vez mais raras.
A paisagem está dando lugar a plantações de cana-de-açúcar. Os agricultores são incentivados pelo governo a aderir à monocultura da cana. As obras, porém, estão atrasadas por conta de escândalos de corrupção, deixando dezenas de agricultores sem ter a quem vender a cana.

Hugo de los Reyes Chávez foi eleito, mas a família abusa do nepotismo. Diante da idade avançada, passou as incumbências da administração para Argenis, um dos irmãos mais novos de Chávez. Ele é o atual secretário de Estado, cargo criado especialmente para o dileto filho. Argenis deve ser o candidato nas eleições do próximo ano, na tentativa de manter a hegemonia chavista na região. Outro irmão menor de Chávez, Aníbal, é o prefeito nomeado de Sabaneta.

O irmão caçula do presidente, Adelis, foi o organizador da Copa América 2007 na cidade, que resultou na ampliação do Estádio La Carolina. A reforma, entretanto, não terminou no prazo e apenas um jogo pode ser sediado ali, entre Paraguai e Estados Unidos. O Paraguai venceu por 3 a 1, para delírio da torcida local, amplamente contrária aos ianques. Seguindo a cartilha populista da família, os ingressos foram comprados por partidários do chavismo e distribuídos gratuitamente entre os eleitores.

Com tantos problemas, os oposicionistas acreditam que a hegemonia da família Chávez está com os dias contados. No referendo de dezembro, a oposição conquistou 44% dos votos em Barinas. Após a derrota, cartazes com a imagem do presidente amanheceram pichados. O borrão no rosto do filho ilustre é apenas uma mostra de que Chávez já não é mais uma unanimidade, nem mesmo em seu berço político.

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