2007-11-24 11:09:00
A Justiça vai pedir ao governo paraguaio o seqüestro de quatro aviões e duas carretas do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, além de uma fazenda de mais de 330 mil hectares, o equivalente a 330 mil campos de futebol. O bandido deverá ainda ser colocado no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) por 360 dias. O pedido foi encaminhado ontem pela 2ª Vara Federal Criminal de Curitiba à Justiça de Campo Grande (MS), onde o chefão cumpre pena no presídio federal de segurança máxima.
Só na Estância Camanai a fazenda paraguaia na divisa com o Mato Grosso do Sul -, há mais de 200 cabeças de gado e dezenas de cavalos. Conta ainda com pista de pouso de aeronaves, uma sede luxuosa de cinco quartos, piscina, churrasqueira e lago artificial.
A propriedade era administrada por Rubens Noberto Outeiro Pinto, um dos presos na Operação Fênix, da PF, deflagrada quinta-feira no Rio, São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. Onze pessoas foram presas. Pelo menos dois fornecedores de drogas e armas no Paraguai ainda estão foragidos. Autoridades daquele país tentam localizá-los. As investigações também descobriram ligações do grupo de Beira-Mar com o Primeiro Comando da Capital (PCC), organização que atua principalmente em São Paulo.
Entre as pessoas de confiança do traficante que usufruíam do conforto da Estância Camanai está o advogado João José de Vasconcelos Kolling, desaparecido durante as investigações. Para a PF, tudo indica que ele tenha sido morto a mando de Beira-Mar por estar desviando dinheiro da quadrilha. Agentes não descartam que Kolling tenha fugido para para não ser assassinado.
Fotos da PF, feitas durante as investigações, indicam a estreita relação entre o advogado e parentes de Beira-Mar. Numa delas, na estância, Jaqueline e seu irmão, Ronaldo Alcântara de Moraes, estão abraçados ao lado de Kolling.
De acordo com investigações, os quatro aviões e duas carretas, que estão no Paraguai, eram usados para trazer drogas e armas ao Brasil. Conversa interceptada pela PF entre Beira-Mar e um traficante paraguaio, em 28 de junho de 2006, revela o esquema. Nessa época, ele estava preso na PF de Brasília.
Em outra conversa, Beira-Mar comenta com um advogado para o grupo criar uma base no Paraná, assim ganharia tempo nas viagens. Durante o monitoramento de parentes e pessoas ligadas ao bandido, a PF descobriu que o plano fora concretizado.
Infiltrados no poder público – Fernandinho Beira-Mar faz planos de longo prazo. E uma das estratégias do traficante para manter os negócios da quadrilha se destacava pela ousadia: financiar estudos de aliados cuidadosamente escolhidos para que, uma vez aprovados em concursos públicos, obtivessem informações privilegiadas.
O plano mais recente era infiltrar na PF o filho da advogada Gersy Mary Menezes Evangelista, presa na Operação Fênix. Numa conversa entre ela e Jaqueline, interceptada pela PF, as duas comentam a idéia de Beira-Mar. Jaqueline, que ganhava importância nos negócios do marido, atualmente estudava Direito.
Segundo a PF, não há indício de que ele tenha conseguido infiltrar aliados na instituição até agora.
A tática de qualificar a mão-de-obra da quadrilha não é nova entre os criminosos. Há dois anos, o Comando Vermelho (CV) teria participado de um esquema de fraude para que integrantes da facção fossem aprovados no concurso para agente penitenciário federal. Os gabaritos teriam sido vendidos por até R$ 36 mil. No mesmo ano, a Polícia Civil do Distrito Federal e a PF fizeram interceptações telefônicas que revelaram negociações da máfia dos concursos com o PCC e o CV.
Investigações feitas na época mostraram que nas cadeias do Rio bandidos tramavam infiltrar membros em cargos da polícia, no sistema penitenciário e até em setores do Judiciário.
A estrutura de segurança montada na casa onde morava a mulher de Beira-Mar foi instalada há cerca de um ano, segundo vizinhos. A luxuosa residência de Jaqueline Alcântara de Morais, na rua Retiro dos Artistas, na Freguesia, Jacarepaguá, tinha na entrada duas câmeras de vídeo e cerca elétrica para protegê-la dos possíveis inimigos. Na quinta-feira, durante a Operação Fênix, agentes da PF desativaram todos os equipamentos eletrônicos colocados no local.
As opções de lazer da mansão eram convidativas. Na entrada, foi construído miniparque infantil. No telhado é possível avistar uma antena parabólica. O terreno, cercado por um muro amarelo, ainda teria uma piscina e vários cômodos, segundo relatos de vizinhos. "Ela quase não saía de casa", contou um morador, que preferiu não se identificar.
Jaqueline namorava Beira-Mar há 15 anos, mas só se casou com ele há dois meses, na penitenciária de Campo Grande. Na quadrilha, segundo investigações da PF, ela era responsável por fazer contatos com fornecedores e concluir as negociações. A mulher do chefão ainda conferia a mercadoria que seria distribuída. Ela tomou a frente do bando após o desaparecimento do advogado de Beira-Mar João José Vasconcelos Kolling, 29 anos.
Uma casa perto da rodoviária de Catanduvas servia como ponto de recrutamento de parentes de detentos da penitenciária federal do município pela quadrilha de Fernandinho Beira-Mar. Administrada por Jacqueline Kelly dos Santos, gerente do traficante na cidade, a acomodação era oferecida em troca de um favor: levar e trazer informações aos presos durante as visitas.
Beira-Mar, segundo investigações da PF, se aproveitava da falta de condições financeiras dos parentes dos presos para aliciá-los. "São pessoas que não têm renda e vêm para Catanduvas sem a menor condição de se manter. Aqui, não têm emprego e são alvo fácil", comentou um policial federal.
Atualmente, nove mulheres moram na casa – a maioria com crianças. Uma delas contou que estava há quatro meses no local e que iria ficar um ano porque não tinha dinheiro para voltar para o Mato Grosso do Sul.
Seu homem de confiança, Juliano Gonçalves de Oliveira, o Juca, de 28 anos, foi preso em setembro do ano passado no morro, na localidade conhecida como Moc. Depois disso, outros dois bandidos passaram a fazer essa ponte: eles estão identificados apenas pelos apelidos de Dudu ou 2D e Gão. Esse último é conhecido dentro da favela como o "homem de ouro", por usar um grosso cordão de ouro com um enorme pingente com a letra G.
Outro ponto estratégico da quadrilha é o Parque Beira-Mar, em Duque de Caxias, também conhecido como favela Dois Irmãos, dividido pela rodovia Washington Luís. Foi de lá que o traficante arregimentou seus maiores aliados e também transformou a região em entreposto de drogas e armas.
Segundo investigações, a favela é responsável por abastecer sete comunidades do Comando Vermelho, movimentando em média duas toneladas só de maconha, além de servir de esconderijo do material antes da distribuição para locais como Complexo do Alemão, Mangueira, Manguinhos, morro Santo Amaro, Pavão-Pavãozinho e parte do Complexo da Maré










