2007-10-11 11:05:00
Se o Mato Grosso do Sul se resumisse a um quarteirão onde vivessem somente 100 pessoas, haveria 51 pardos, 41 brancos, cinco negros e dois índios. Oitenta não teriam ligação de esgoto e nove não saberiam ler nem escrever. Dez moradores embolsariam 52 por cento da riqueza do quarteirão inteiro, enquanto os 40 mais pobres precisariam de um milagre (ou da sensibilidade do governo) para continuar vivendo com 17 por cento do dinheiro.
O lugar produziria alimentos em quantidade suficiente para exportar para os quarteirões vizinhos ou até mesmo para os bairros mais distantes, mas pelo menos um em cada cinco moradores não teria renda suficiente para fazer as três clássicas refeições de todo dia. Os dez mais ricos seriam donos de mil bois, mas a carne não estaria no cardápio regular dos vinte mais pobres. O quarteirão é fictício, mas a desigualdade não*.
Quando foi criado há 30 anos, Mato Grosso do Sul suscitou esperanças de que o Estado, por estar começando do zero, teria um destino que não reproduzisse tão à risca o quadro de tragédia social pintado nacionalmente. Isso não aconteceu porque, na opinião de alguns estudiosos, o Mato Grosso do Sul já nasceu velho.
“Esse negócio de estado modelo é um mito, nunca encontrei em qualquer documento com referência a um estado modelo”, diz o professor Tito Carlos Machado de Oliveira, do Departamento de Economia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). “O MS optou por um formato de desenvolvimento velho, baseado em latifúndio, e todos os caciques políticos ficaram no sul e, como isso, Mato Grosso, de fato, é que se separou, porque teve a oportunidade de criar novas práticas e romper com as antigas”.
A longevidade do binômio boi-soja, afirma, é o reflexo de uma base econômica formada pela combinação do latifúndio com a dependência de capitais externos e mão-de-obra sem qualificação. A “novidade” dos canaviais e da exportação de etanol para o mundo, segundo o professor, é a “repetição do velho” modelo concentrador.
“O modelo novo só é possível com uma reestruturação completa, baseado em um forte esforço de educação – e isso não é impossível porque nossa população é diminuta, equivale ao dobro do número de moradores da Rocinha – e uma mudança de foco para incentivar arranjos produtivos locais e investimento tecnológico”, acredita.
De plano em plano – Se há desigualdade entre pessoas, também há entre cidades e regiões. Ao combinar dados como escolaridade, expectativa de vida e renda, IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) dá uma noção disso. A mais bem colocada no ranking nacional da qualidade de vida é Chapadão do Sul, na região do Bolsão, que está entre as duzentas primeiras colocadas. Está ao lado de congêneres prósperas do rico interior de São Paulo ou da Serra Gaúcha. Japorã, por outro lado, segura a lanterna do IDH do Estado e aparece na 4006ª posição entre os mais de 5500 municípios brasileiros. Japorã tem indicadores de qualidade de vida similares a de cidades castigadas pela seca no sertão nordestino.
As desigualdades regionais são um problema grave de Mato Grosso do Sul hoje, de acordo com o coordenador do Laboratório de Planejamento Regional da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), Adauto de Oliveira Souza.
Segundo ele, a visão de desenvolvimento do Estado a partir de pólos – Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e Corumbá – aumenta as desigualdades entre regiões.
“Todos os projetos de desenvolvimento de Mato Grosso do Sul até agora se sustentaram na teoria dos pólos de desenvolvimento, elaborada pelo economista francês François Perroux – o que, historicamente, tem implicado em aplicar a maioria dos recursos públicos apenas nestas cidades. Isso traz como conseqüência o aumento das desigualdades regionais”, aponta. Um exemplo dessa realidade, afirma, são os distritos industriais instalados nestas cidades, que consumiram investimentos pesados do poder público e que acabaram aumentando o problema da concentração.
O professor afirma que não faltaram planos para tentar combater as disparidades entre regiões de MS. Faltou mesmo foi ação e sobrou irresponsabilidade dos sucessivos governos que, ao ascender ao poder, trataram logo de engavetar todo o planejamento produzido pelo antecessor.
“Cada governo quando assume procura apagar todo o trabalho anterior e implementar uma nova marca, descartando todo o trabalho produzido anteriormente. Tal prática tem significado não apenas desperdício de dinheiro público, mas o mais grave é a postura de descrença que a sociedade, de maneira geral, passa a se comportar frente às propostas de planejamento regional que aparecem a cada quatro anos”, aponta.
(*) Baseado em dados fornecidos pelo IBGE e pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).












