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terça-feira, 28 de abril de 2026

Supersafra faz setor prever ganho de até 10% em MS

2007-09-08 17:32:00

Com clima favorável na safra de verão, bom nível de tecnologia empregado, manejo adequado, redução nos custos dos herbicidas, uso de melhores cultivares, somados a um produtor a cada dia mais atento às sinalizações das demandas internacionais, foram fatores identificados pela cadeia produtora, que permitiram a agricultura sul-mato-grossense pudesse ter atingido na safra 2006/07, o melhor resultado entre as últimas três safras, e um dos maiores do Estado, com produção de 8.277,2 mil (8,2 milhões) toneladas de grão e fibras, mesmo com redução da área em 1,9 %, caindo de 2.869,5 mil hectares para 2.815,2 mil hectares.

Com base nestes dados, e especialmente no contexto que levou ao desempenho surpreendente, já que a agricultura do Estado carrega uma âncora, a cada safra mais pesada, e estimada até 2006/07 em um passivo de R$ 3,5 bilhões, permite que especialistas, produtores e representantes do governo estadual estimem que a área da safra 2007/08 deva crescer entre 5% a 10% no Estado.

Porém, vale destacar que dados oficiais sobre a próxima safra só começam a ser colhidos nos campos do Estado a partir da segunda quinzena de setembro. Neste momento, boa parte dos produtores de milho-verão que já tomaram sua decisão, só aguardam a chuva para iniciar o plantio. Já os sojicultores ainda devem aguardar o final do vazio sanitário da cultivar que encerra em outubro.

O fechamento dos números da safra 2006/07, foi divulgado nesta terça-feira (4), pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em seu último levantamento de Safra (12º). O estudo observou as culturas de algodão, amendoim, arroz, feijão, milho, soja, trigo e demais produtos. O grande destaque do estudo esteve por conta do crescimento de 25,8% na produção total de milho no Estado, que atingiu 2.818,2 mil toneladas, e sobretudo com o crescimento da área do milho safrinha em 42%, saltando de 521,3 mil hectares para 740,2 mil hectares.

O resultado, amplamente comemorado, para o Superintendente de Agricultura e Pecuária da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agrário, da Produção, da Indústria, do Comércio e do Turismo (Seprotur), João Carlos Krug, pode ser compreendido sobre dois aspectos. Condições favoráveis de clima e redução nos custos de produção. “Sobre tudo nas culturas de verão, especialmente da soja, e do algodão, com condições que dificilmente poderá ser repetida nas próximas safras”.

“O produtor veio de uma safra de boa remuneração, e, mesmo com redução de área, fez uma planta bem feita, sobretudo com ajuda do clima”, destaca Krug, lembrando que no caso da soja, a cultura foi beneficiada pela política de vazio sanitário adotada nos estados vizinhos de Mato Grosso e Goiás, reduzindo os prejuízos com a ferrugem da soja, e também, pela queda dos preços dos fungicidas.

No caso da cultura do algodão, que registra no Estado a melhor produtividade por hectare do País, com o algodão em caroço registrando 3.930 quilos por hectares e ampliação de área de 52%, indo para 45,6 mil hectares, o quesito clima, foi “excepcional”, pontua Krug.

“O algodão teve um clima excepcional, não sabemos se isso poderá se repetir novamente”, lamenta.

Para o Superintendente da Conab no Estado, Alfredo Sergio Rios, o resultado histórico no Estado, mais do que sinalizar um início de recuperação, também registra um novo fenômeno no setor, especialmente no milho, soja e algodão. Ele conta que o mercado registrou elevação dos preços internacionais destes grãos acima dos seus patamares históricos, e isso não ocorre por uma adversidade sazonal, mas, por uma crescente e irreversível tendência provocada pela demanda mundial pela bioenergia.

“O mercado sinalizou na safra passada e está sinalizando alta soja e milho, temos estimativas, mas não sabemos o que vai acontecer com este crescimento, o mercado fala que devemos exportar nesta safra 2006/07, 12 milhões de toneladas de milho, quando prevíamos, no melhor cenário, 8 milhões de toneladas”, comenta Rios, revelando que a maior demanda pelo grão ocorre na comunidade européia.

“Acreditávamos que a maior ampliação de área poderia ser na cultura da soja, mas agora, observamos que pode ocorrer no milho, podendo crescer ainda mais”, destaca, explicando que no caso desta lavoura, a alta no preço do produto foi desencadeada pelos Estados Unidos da América, maior produtor e exportador mundial, quando anunciou sua intenção de usar mais milho para fazer álcool. Hoje, no Estado, o grão está sendo comercializado entre R$ 18 a R$ 20, e a tendência, para próxima safra, é de permanecer neste patamar.

No caso da soja, Rios lembra que a cultivar registrou redução de área de 10,9%, caindo de 1.946,8 mil hectares para 1.737,1 mil hectares, mesmo com o mercado sinalizando preços favoráveis.

“Embora o mercado sinalizasse preços bons para a soja, o limitante foi o poder aquisitivo do produtor, e identificamos que o produtor abandonou as áreas marginais, ou seja, sem recursos e créditos, produziu dentro de suas limitações e deixou de lado áreas de baixa produtividade”, revela.

O presidente da Associação dos Produtores de Soja do Estado (Aprosoja), Carmélio Roos, destaca que o bom resultado da safra se deu, no caso da soja, fundamentalmente pelo fato clima, já que na cultura a tecnologia usada foi menor.

“Além do clima, o produtor contou com aumento de produtividade das novas cultivares, que incorporam características melhores de produtividade. Devemos lembrar que a Monsanto constatou que a safra registrou 68% de grãos transgênicos, dentro de nossa previsão inicial”, lembrou, afirmando que a próxima safra estadual deverá produzir entre 75% a 80% de transgênicos.

Outro fato importante para o resultado da soja, destaca Roos, foi a redução de custo dos herbidas. Porém, no geral, os custos estão elevados na cultura, e a sua viabilidade está em quase estrangulamento, o que também explica a redução de área registrada. Para exemplicar este cenário, ele lembra que há 32 anos, o custo de produção da soja era estimado em 15 sacos de soja por hectare.

“Pagávamos todos os custos do plantio, hoje, temos situações onde o custo representa 45 sacos, ou seja, hoje, o custo cresceu três vezes”, alerta, lembrando que na época a produtividade média era de 25 sacos por hectare no Estado. Atualmente, a produtividade média é de 50 sacos.

“A produtividade dobrou, mas o custo triplicou”, revela, acrescentando que antes o produtor tinha como “lucro” 10 sacos do produto, e hoje, tem dificuldades em reduzir custos a cada safra maiores.

Seguindo o mercado- Já para a próxima safra, embora Roos concorde com a manutenção do cenário atual, é cauteloso em sua estimativa. Acredita que no caso da soja, a produção e área deve oscilar positivamente ou negativamente, dentro do registrado nos últimos anos.

“Se tivermos diminuição de área, será de no máximo de 5%, e se tivermos ampliação, também deverá ficar neste patamar”, prevê, justificando sua declaração pelo alto grau de endividamento do produtor na região, seja nas linhas oficiais ou nas multinacionais, e aposta em redução do uso de tecnologia.

“A leitura é que o Brasil está bem, está exportando muito, mas o produtor está mal, está sofrendo ano após ano, e não consegue colocar a casa em dia”, lamenta.

O vice-presidente da Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), Eduardo Riedel, admite que embora o momento seja de comemoração, a maior preocupação de entidade é de equalizar os prejuízos acumulados pelos produtores nos últimos anos. Neste ponto, conta como maior aliado o governo estadual, que tem sinalizado que o mais breve possível deverá traçar uma política de longo prazo para o setor, permitindo seu crescimento, sobre tudo dentro da vocação natural, de grande exportador nacional de grãos.

“Esperamos que o governo gere o ambiente de maior competitividade, reduzindo as tarifas sobre os produtos de exportação. Isso tem sido outra âncora nesta recuperação. Sabemos que o Estado é penalizado pela Lei Kandir, concordamos, o problema é do governo federal, mas o produtor não tem como pagar a conta e ainda conseguir recuperar o passivo que traz ao longo dos anos. É preciso haver uma ruptura deste ciclo vicioso”, aponta.

Desafios do futuro- A grande expectativa do setor com a nova dinâmica do mercado, pressionado pela agroenergia, com os preços da soja e milho subindo de maneira bastante expressiva nos mercados internacionais, o consenso entre os entrevistados é de que haverá um leve aumento de área na safra 2007/08, que poderá oscilar entre 5% e 10%. Por outro Lado, Riedel lembra novamente do passivo do setor.

“A agricultura do país carrega no ombro um passivo de R$ 100 bilhões, mas equacionando esta divida e com os preços que estamos vendo no mercado futuro para a próxima safra, o aumento seria muito mais expressivo”, diz, informando que o mercado futuro já está negociado o milho para fevereiro e março de 2008 com a saca a R$ 23 e R$ 24 em Campinas e de até R$ 25 em Paranaguá. No Estado, o grão está sendo travado a R$ 17 e R$ 18. Na soja, a previsão para o mesmo período no Estado, é de U$ 15, o que representaria com o dólar cotado a R$ 1,99, uma saca a R$ 29,85.

“Ai cabe outra análise, revelada pelos agentes de mercado internacional. Quem vai ditar o preço da soja no mercado internacional será o câmbio brasileiro”, afirma Ridel, revelando que para os analistas o Brasil é o único lugar no mundo onde pode haver ampliação de área de forma rápida.

“Então, o preço pode ir até U$ 20, a um dólar cotado a R$ 1,80, e acho importante este conceito, porque em dólar o preço está bom, mas o câmbio não se traduz em margens de lucro suficientes ao produtor brasileiro, por isso, nossa estimativa é de que a nossa área tenha ampliação de 4% a 5%, e ai temos a área de soja comprometidas com a cana”, pondera Riedel.

Outro gargalo que poderá pontuar o ritmo do crescimento da agricultura do Estado na próxima safra, lembrado pelo presidente da Aprosoja, é a elevação dos preços dos fertilizantes e a concentração de terras, outro fenômeno, contrário a reforma agrária, e que começa a preocupar o setor, com a manutenção de sistemas monocultores.

“Este fenômeno está ocorrendo no Estado, uma contra-reforma agrária, com propriedades aumentando de tamanho, e com grandes grupos internacionais procurando a região para plantar e produzir agroenergia. Mas não tenho visto a preocupação sobre os adubos e nutrientes necessários para esta produção. As fontes destes produtos são poucas no Brasil, e eu prefiro andar de burrico, mas vivo, do que andar de espaçonave e não ter o que comer”, alerta.

O superintendente de Agricultura e Pecuária da Seprotur, João Carlos Krug, analisa duas situações para a próxima safra: os excelentes preços internacionais, acima do patamar histórico, e o aumento dos custos dos insumos, especialmente dos fertilizantes que já aumentaram praticamente 100% e o câmbio, o que não irá mudar a realidade do produtor que, endividado, terá que comprometer a safra, antecipando os recebimentos dos contratos.

“Esta situação é a do cara que passa fome, e tem que vender a janta para almoçar”, e explica: “o agricultor tem que vender antecipado não porque quer, mas porque precisa”, lamenta, lembrando que mais da metade dos produtores do estado terão que comprometer a “refeição”.

Momento de reflexão- Neste momento de tomada de decisão, Krug lembra para o produtor consultar o mercado e não colocar todas suas fixas em um produto só. Para ele, o agricultor precisa pensar na rotação de cultura, e diversificar para minimizar os riscos.

“O momento não é de euforia, mas de recuperação, e dentro de poucos anos, vamos ter um agricultor forte, como já é nossa agricultura”, afirma, lembrando que embora a economia do Estado não permita o lançamento de grandes obras, o governador André Puccineli já se comprometeu em manter as estradas em condições de tráfico no período da colheita.

Sergio Rios, da Conab, concorda com a Seprotur, para ele o produtor precisa agir realisticamente sobre sua condição, o suporte de negociação, e ver o que pode fazer, e não sair além de sua capacidade, porque, neste momento, se os EUA mudarem sua situação, o que é pouco provável, o mercado sofrerá um baque e ficará com o prato da mão.

“O produtor não pode colocar todos os ovos em uma cesta só, afinal, o que vai sobrar para comercializar? Será que vai sobrar recursos para investir na safra de inverno?”. E acrescenta: “O produtor não pode achar que nesta safra irá recuperar o prejuízo dos últimos anos. Não vai salvar sua situação em uma safra apenas”.

Eduardo Riedel lembra que o país caminha para a próxima safra novamente sem uma política agrícola consolidada, o que faz com que o produtor viva sendo obrigado apagar incêndios, e alerta para que o setor possa participar mais da estratégia de gerenciamento de risco.

“Este é um trabalho que estamos fazendo para melhorar esta cultura, mas temos que ter capital para isso, temos instrumentos de travamento de preço, mas o produtor fará? Este é o conhecimento que o produtor tem que ter e começar a usar, usar o mercado a termo. Nosso recado é de cautela, com perspectivas positivas, mas de cautela e muito pé no chão”, pondera.

A grande preocupação de Riedel é que o setor comece um ciclo desenfreado, é mesmo diante de um cenário de mudanças dos patamares históricos de preço, o produtor precisa usufruir disso, mas para isso, vai ter que gerenciar seus riscos como nunca.

“Temos que ter cautela, e não se deixar levar pelo entusiasmo de safra recorde. O preço está bom, mas e ai? Tem muita gente saindo da atividade, então, temos que ter cautela”, conclui.

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