2007-06-13 21:31:37
Gravações telefônicas interceptadas pela Polícia Federal de Três Lagoas, segundo inquérito policial, evidenciam a ligação de policiais civis daquele município com a exploração dos caça-níqueis, com recebimento de propina, além dos crimes de tráfico de armas e munições, corrupção passiva e ativa. Em um dos telefones, um policial cobra propina de R$ 3 mil.
O inquérito que tramita em Três Lagoas é originário da Operação Xeque-Mate, que investiga crimes ligados a atividade de caça-níqueis. Durante os trabalhos, a PF descobriu o esquema dos policiais civis de Três Lagoas com proprietários de casas de jogo de azar e caça-níqueis e até com quadrilha especializada em desmanche de veículos furtados e roubados.
O inquérito aponta que os policiais civis Iraceno Teodoro Neto, Rubens Baptista Filho, José Lopes da Silva Junior e Carlos Antônio Mantovane, “com frequência e de forma direta”, exigiam pagamento, em dinheiro, dos empresários do jogo de bicho e caça-níqueis.
Em ligação interceptada no dia 17 de fevereiro, Márcio Moraes de Paiva (Márcio Borracheiro), gerente de casa de casa de caça-níqueis, relata a Rubens Baptista que duas das máquinas foram apreendidas. Surpreso, o policial civil se oferece para abrir os equipamentos e tirar tudo, ou seja, o dinheiro que está na máquina. Rubens ainda sugere a Márcio para entregar uma chave a fim de facilitar a retirada do dinheiro das máquinas apreendidas. Dois dias depois, Márcio Moraes fala com a mãe e diz que paga R$ 2 mil aos policiais.
No dia 26 de janeiro, Ivaneide dos Santos, funcionária de Antônio Aparecido Ferreira (Toninho Boi), proprietário do Bingo Fortuna, liga para Ivan Paulo Hollich e diz que o “Rubão tá aqui”. Em conversa gravada no dia 29 de janeiro, Ivaneide fala com pessoa identificada apenas como Gilberto e conta que está com problemas com um dos apostadores do bingo quanto ao valor a ser pago e que para resolver o impasse, Ivaneide diz que irá chamar o “Rubão, o policial”. No dia 2 de abril, Ivaneide conversa com Antônio Aparecido e diz que precisa pagar R$ 3 mil a “Rubão”.
No dia 27 de fevereiro, é a vez do policial civil Carlos Antônio Mantovane (Carlinhos) exigir o pagamento de propina de Reginaldo da Silva, ligado à casa de jogos Bingorama. Preocupado com a forma de repasse do dinheiro, Carlos Mantovane sugere a Reginaldo Silva para trocar o cheque que seria utilizado para o pagamento.
Tráfico de armas e munição– Em outra fase da investigação, os policiais federais apuraram que José Lopes da Silva Junior, Iraceno Teodoro Neto, Rubens Baptista Filho e Edson Ivase também participavam de esquema de tráfico de armas e munição e para isso, tinham ajuda de Rogério Amorin Marinho (Rogerinho) e Kelcy Mercy Dias, que forneciam armas e munições, além do advogado Adriano Henrique Jurado, que agenciava compradores para os produtos.
Conversas telefônicas entre os dias 14 e 27 de fevereiro e 10 de abril mostram que José Lopes da Silva e Iraceno Neto tratavam da venda de uma arma para Marcos Luciano da Silva Sanches.
No dia 20 de março, o policial Edson Ivase negocia com Jamil Abudh Junior (agente penitenciário aposentado) a compra e a venda de uma pistola 9 mm e diz que tem parceira com José Lopes na negociação. No dia 17 de abril, o policial civil José Lopes encomenda de Rogério Marinho uma caixa de munição.
Os policiais ainda são acusados de fazer negociações em que “oferecem” clientes a advogados. Rubens Baptista, Iraceno Teodoro Neto, José Lopes da Silva, João Ramos dos Santos, Durval Quijadas e José Miguel Celestino teriam com o advogado Hélio Ferreira Júnior e outros advogados, ainda não identificados, em vínculo associativo prévio, configurando corrupção passiva e ativa.
Pelo esquema, assim que os policiais tinham conhecimento de prisões em flagrante, entravam em contato com os advogados, previamente selecionados para assistência jurídica dos presos. Em contrapartida, os policiais pagavam uma parcela do valor cobrado, em favor dos militares.
]No dia 25 de fevereiro, o policial civil Rubens Baptista, entra em contato com o advogado Hélio Ferreira Júnior pedindo para que ele vá até à delegacia para atender caso de prisão em flagrante, envolvendo violência doméstica. Em seguida, antes mesmo do advogado chegar ao local, voltam a conversar por telefone e, juntos, discutem o valor a ser cobrado.
Hélio Junior fala em cobrar R$ 1 mil, quando Rubens Baptista interfere e orienta a cobrar R$ 1,2 mil, para depois, acertar em R$ 1mil. No fim do diálogo, Baptista orienta o advogado a deixar a pessoa presa por alguns dias, “para valorizar” o serviço, não sendo constetado pelo advogado.
Desmanche de veículos –Os policiais federais ainda averiguaram participação dos policiais na facilitação da ação de uma quadrilha especializada em desmanche e comércio de veículos furtados e roubados. José Lopes e Rubens Baptista recebiam em dinheiro e até em peças de carros.











