Gazeta de Amambaí


Domingo, 27 de Maio de 2018 às 10:02

Os mitos que podem trazer insegurança e riscos à gravidez

"E agora, o que vamos fazer? será que vou ser boa mãe? será que vou dar conta?". Um misto de "alegria e medo" invadiu a educadora física Thays Bacchini, de 30 anos, quando descobriu que estava grávida.

"Passa muita coisa na nossa cabeça", diz ela, lembrando que a esse turbilhão de pensamentos se somou um bombardeio de "receitas" sobre a gravidez - que lhe diziam "para comer por dois, para ter sustança", "para, pelo amor de Deus, parar de fazer exercícios até o bebê nascer", entre outras coisas disparadas por todos os lados.

"Eu gosto de ouvir o que os outros têm a dizer", observa Thays. "Mas as histórias precisam ter fundamento, porque assim como podem trazer leveza e ser um jeito de a pessoa se mostrar presente nesse momento, elas também podem gerar insegurança".

Essa também é a análise de especialistas, que alertam para os potenciais efeitos de crenças e mitos para a mulher e o bebê.

As consequências, dizem, incluem estresse e situações que põem a saúde em risco. "Muitas dessas histórias deixam a mulher preocupada a gravidez inteira, cheia de fantasmas na cabeça", frisa a ginecologista Mariana Maldonado, especialista em obstetrícia e sexualidade humana.

Imagem mostra várias mãos sobre a barriga de uma mulher grávidaDireito de imagemARQUIVO PESSOAL/ ANA PAIS
Image captionMulheres dizem se sentir "o centro dos palpites" quando engravidam e que eles nem sempre têm graça

O que é mito?

"Histórias fantásticas" que têm como protagonistas deuses, seres sobrenaturais e heróis - como os gregos - ou "relatos passados de geração em geração dentro de um grupo". No dicionário, essas estão entre as várias definições existentes para mitos.

Aos ouvidos das grávidas, é assim que muitos deles chegam e assumem ares de verdade - quando, na realidade, são histórias com significado deturpado ou sem fundamento que podem estar envoltas de perigos, observa o ginecologista e obstetra Domingos Mantelli, autor do livro Gestação - Mitos e Verdades sob o olhar do obstetra, que responde a cerca de 200 questões de pacientes nesse sentido.

A psicóloga especializada em psicoterapia para gestantes Flávia Alvares Fernandes diz que "quando a mulher tem mais acesso à informação e se informa pelas fontes certas, "fica mais tranquila diante do que ouve, mas se estiver insegura na relação com a gravidez a tendência é que superdimensione a questão".

"A gestação já é um momento de conflitos nela e em que sofre diversas pressões. Os mitos potencializam isso", diz.

Flávia Alvares Fernandes,psicólogaDireito de imagemCEDIDA
Image captionFlávia Alvares Fernandes, psicóloga especialista em psicoterapia para gestantes: Mitos pioram conflitos que normalmente existem nessa fase

No livro O que é mito, em que trata do tema de forma geral, o antropólogo brasileiro Everardo Rocha ressalta que o mito muitas vezes é rotulado como "mentira, cascata ou coisa irrelevante", mas que "pode ser verdadeiro estímulo forte para conduzir tanto o pensamento quanto o comportamento do ser humano". "Eles funcionam socialmente. Existem bocas para dizê-los e ouvidos para ouvi-los".

A seguir, seis mulheres e especialistas entrevistados pela BBC Brasil apontam e ajudam a esclarecer os que são mais ditos e ouvidos pelas grávidas. A lista vai desde questões ligadas à alimentação, exercícios físicos, viagens de avião e parto, até sexo, exames e consumo de álcool.

"Comer por dois", não. E fazer exercícios, sim, dentro dos limites

Para a paulista Thays Bacchini, a gravidez trouxe situações engraçadas, como premonições de que teria um menino por ter a "barriga pontuda" e um "teste dos talheres" para revelar o sexo do bebê.

Um garfo e uma colher escondidos embaixo de almofadas, nesse caso, indicariam menino e menina, respectivamente. Ela escolheu uma, sentou e encontrou o garfo. Deu menino outra vez, lembra.

Mas o sinal estava errado - já que é uma menina, Júlia, que ela vai ter - assim como estava a sugestão que ouviu para "comer por dois" nesse período. "Comer por dois não se indica nunca", diz o presidente da Comissão de Assistência Pré-Natal da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Olímpio Barbosa de Moraes Filho.

Em média, a Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta o consumo de 2.500 calorias por dia - são 500 a mais que uma adulta não grávida - e há a recomendação de ganho de peso de cerca de 12 quilos, tendo em vista que excessos podem levar a doenças como hipertensão e diabetes. Mas "a dieta vai depender do peso e estatura da gestante".

E o mais importante é "ter uma alimentação saudável, balanceada e com orientação", complementa Domingos Mantelli.

Foi isso o que Thays buscou com a ajuda de uma nutricionista: uma gravidez saudável. Com o mesmo objetivo, decidiu manter a rotina de exercícios, mas não faltaram vozes contra.

Thays Bacchini fazendo exercíciosDireito de imagemCEDIDA
Image captionThays Bacchini: Atividade física mantida com adequações e o sentimento de estar preparando o corpo para o nascimento do bebê

"Foi com o que mais me bombardearam, até por eu trabalhar na área. E isso foi o que mais me irritou", diz. "Não vai agachar, não pega esse peso. Você não pode fazer isso nunca mais até sua filha nascer", era o que ouvia.

Educadora física e personal trainer pós-graduada em "atividade física adaptada e saúde para públicos especiais", inclusive gestantes, a paulista sabia que eram mitos. Ainda assim, interrompeu a atividade até confirmar que estava tudo bem na gravidez e receber sinal verde da médica - "respeitando os próprios limites".

Há um ano praticando Crossfit, Thays adequou o treino. Chegou a substituir corridas e saltos sobre caixas, por exemplo, por outros de menor impacto na bicicleta ou ainda na caixa, mas devagar, com um pé de cada vez.

A liberação para se exercitar e quanto ao tipo de exercício depende da condição da grávida, e não há uma restrição válida para todos os casos, segundo especialistas.

Em relação ao Crossfit, considerado de alto impacto, Domingos Mantelli admite que é mais "contraindicado" - mas que, assim como outras atividades "pode ser feito com orientações e se adaptado por um preparador físico".

Modalidades como hidroginástica, natação, corrida e musculação são outras que cita entre as possíveis de serem praticadas, sempre com esses cuidados.

Exercícios ajudam a diminuir riscos como hipertensão, diabetes, prematuridade e complicações no parto. "Há muitas vantagens", afirma Thays, que a atividade também lhe ajuda a preparar o corpo para o parto natural. "O exercício fortalece a musculatura, traz muita disposição, melhora dores, circulação, controla a ansiedade, ajuda a respirar melhor e controla a pressão".

Andar a pé, de bicileta e de avião: Pode, se a gravidez vai bem

Patrícia Broda, grávida, no aeroportoDireito de imagemCEDIDA
Image captionPatrícia Broda: Gravidez com orientação e sinal verde à rotina, inclusive de viagens

A brasiliense Patrícia Broda, 29, vai ter um menino, Victor. E o que mais ouviu foi "você vai ficar mais quieta, não é?". O que significava não andar muito a pé, evitar a bicicleta e viagens de avião - na prática, uma grande mudança de rotina. O risco que apontavam era de aborto.

"Como minha gestação foi difícil de conseguir, as pessoas falavam muito em repouso, mas não tem nada que indique repouso quando se está bem", diz. "Às vezes criam um estresse que não precisa, criam um monstro na cabeça da mulher".

Patrícia mora na Dinamarca e engravidou por fertilização in vitro. Tal particularidade não implicou, porém, em restrições.

"Me certifiquei com o médico de que não teria complicação e então me senti livre para fazer o que quisesse, manter a rotina".

E o que ela quis e fez foi manter essas atividades. Entre elas, viajar de avião para quatro países.

"Há pacientes que podem e outras que não podem voar", diz o obstetra Domingos Mantelli.

Domingos Mantelli, ginecologista e obstetraDireito de imagemDIVULGAÇÃO
Image captionMantelli, ginecologista e obstetra: "Há histórias com significado deturpado por quem conta e outras que não tem nenhum fundamento"

Normalmente o embarque é permitido até o oitavo mês, mas a mulher precisa de autorização do obstetra além de apresentar atestados e documentos específicos para as companhias áreas analisarem se a viagem é possível - e, se for, se precisa levar um médico a bordo.

As regras variam pouco entre as empresas Latam, GOL, Azul, Avianca e a portuguesa TAP, consultadas pela BBC Brasil.

Mantelli observa que pelo risco de não haver estrutura de atendimento adequada a bordo ou em possíveis áreas de pouso, as viagens às vezes não são recomendadas. Se a gravidez envolver mais de um bebê ou se houver complicações médicas também pode haver restrições.

Patrícia viajou até o sétimo mês e conta que ela e o bebê estiveram bem.

"Minha única preocupação era 'meu Deus, que horas vão servir o lanche'?", brinca.

Sushi, caranguejo e camarão: Com cuidados

Elisa Elsie, na praiaDireito de imagemEVERTON DANTAS / CEDIDA
Image captionElisa Elsie, quando estava grávida de Miguel, hoje com dois anos: Manter rotina, apesar dos mitos que ouviu, era "libertador"

Lidar com a gravidez, no começo, foi difícil para a fotógrafa natalense Elisa Elsie, de 33 anos. "Eu estava numa fase incrível da minha carreira e sabia como seria a rotina. É uma questão de vida, muda tudo. A relação do casal, você tem alguém dependente de você 24 horas, o trabalho e os estudos precisam esperar", diz ela. "Contei para minha família com quase cinco meses e publiquei a primeira foto grávida com quase seis".

Além de ter de aprender a lidar com a nova realidade, ela acabou chegando a uma outra conclusão: "Parece que mulher é domínio público. Todo mundo tem um pitaco, uma sugestão, uma dica".

Elisa "não dava muito espaço para isso", mas não escapou do bombardeio que chegava na ponta da língua de bocas alheias e que iam desde "é melhor não dirigir nem andar por aí sozinha", até "você não devia estar andando com essa barriga de fora! A cidade está cheia de mosquito!", apontando o risco de contrair alguma doença. "Eu falei que estava de repelente e continuei andando", diz ela.

"Sempre estava de barriga de fora, porque era verão e eu estava me achando linda!".

O que ela "passou a gravidez inteira ouvindo", entretanto, foi para comer bem e muito para alimentar o bebê" e não só isso. "Alguém comentou também que eu não poderia comer frutos do mar ou crustáceos", diz. "Só que não resisti às ostras e comi caranguejo".

Temendo "contaminação na carne", o que ela evitou foi sushi cru, alimento que não é, entretanto, proibido, diz Mantelli. Mas que exige cuidados.

Elisa ainda grávida, com o marido, Everton DantasDireito de imagemMARIANA DO VALE / CEDIDA
Image captionElisa com o marido e jornalista Everton Dantas: "Não basta só a mulher estar bem informada. Toda a rede de apoio dela precisa também"

Ele explica que o grande mito nessa questão é que o peixe cru transmita toxoplasmose, uma doença infecciosa que pode passar da mãe para o feto. Mas o peixe cru não transmite toxoplasmose. O risco, na verdade, é que a grávida sofra alguma infecção ou intoxicação alimentar, como qualquer outra pessoa, se o peixe estiver estragado. E complicações se estiver contaminado por mercúrio.

O atum, por exemplo, tem alta concentração desse metal e, por isso, especialistas não recomendam o consumo mais do que duas vezes ao mês. O excesso pode prejudicar o desenvolvimento do cérebro do bebê, podendo gerar problemas auditivos, de aprendizado e de visão, por exemplo.

"Mas dizer que a grávida não pode comer sushi é mito", reforça Mantelli, frisando a necessidade de atenção ao frescor do peixe e à higiene da cozinha onde é preparado.

O NHS, sistema público de saúde do Reino Unido, acrescenta: "Tudo bem comer peixe cru ou levemente cozido em pratos como sushi quando se está grávida, desde que qualquer peixe selvagem, cru, usado para fazer isso tenha sido congelado primeiro".

A precaução é necessária para matar vermes parasitas que ocasionalmente existem nesses peixes e podem causar doenças.

Para ostras, camarões e caranguejos, a recomendação é ingeri-los cozidos, pelo risco de haver intoxicação alimentar se a carne estiver crua.

Elisa, que não abriu mão das iguarias, afirma que "era libertador" manter a rotina, inclusive em relação à comida, sem dar ouvidos ao que ouvia sem fundamento. Ela vai além: "Não basta só a mulher estar bem informada. Toda a rede de apoio dela precisa também".

Parto normal ou cesárea: O primeiro é mais recomendado

Ana Karla e famíliaDireito de imagemVELOSO VALENTIM FOTOGRAFIA / CEDIDA
Image captionAna Karla, o marido Wellington e a filha Cecília após o parto de Olívia: Decisão por parto normal não foi abalada por mitos

Em Brasília, a arquiteta, fotógrafa e empreendedora Ana Karla Veloso "sempre teve na cabeça que parto normal era melhor e que a cirurgia era só para emergência". A percepção estava certa, segundo o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Diversas histórias, porém, lhe empurravam para a cirurgia.

"Talvez você não aguente a dor" se o parto for normal e o bebê já "está meio pesado" para nascer assim, por exemplo, se somaram a outras que leu na internet. "Eu chorei no consultório da médica", lembra Ana. "Pedi pelo amor de Deus que não fizesse cesárea se não fosse necessária", diz ela. E não fez. As duas filhas, Cecília, agora com 5 anos, e Olívia, de 1 ano e meio, nasceram de parto normal.

"Mas já vi vários casos de pessoas que queriam parto normal e acabaram na cesárea. Há muitas histó Fonte: BBC Brasil

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