Gazeta de Amambaí


Terça-Feira, 17 de Julho de 2018 às 16:02

A Guerra de Troia existiu mesmo ou é um mito exagerado pelas narrativas épicas?

Cavalo de Troia

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GETTY IMAGES
Image captionA 'Ilíada' e a 'Odisseia', ambos de Homero, tiveram um grande impacto na cultura mundial

Na antiguidade, os gregos pré-cristãos não tinham um equivalente à Bíblia.

A coisa mais parecida que eles tinham - e não era muito semelhante - era Homero: uma única palavra que representa tanto o suposto autor da Ilíada e da Odisséia quanto seu cânone.

Estes poemas épicos, compostos em versos hexâmetros, tiveram um impacto impressionante na cultura mundial. Não é um exagero descrevê-los como as duas obras fundamentais das literaturas grega e europeia.

Ao menos sete cidades gregas reivindicaram-no como seu filho favorito. Mas quem era exatamente Homero? Quando viveu? E para quem ele escreveu as suas obras?

Os gregos também não se entendem sobre isso, principalmente por falta de provas.

Datar as epopeias e sua temática é um assunto que gera debate. Os antigos gregos afirmavam que a Guerra de Troia foi travada entre 1194 e 1184 a.C. - uma data amplamente aceita por alguns estudiosos modernos - e que Homero viveu até o final do século 8 a.C..

Mas há duas coisas em que quase todos os gregos antigos concordavam: que Homero foi o autor de ambos os poemas épicos e que o conflito que eles descrevem, a Guerra de Troia, foi uma batalha que realmente aconteceu.

No entanto, esta última crença requer uma nova análise e uma reavaliação à luz das recentes pesquisas linguísticas, históricas e, acima de tudo, arqueológicas.

'Mitos'

As histórias contadas na Ilíada e na Odisséia são incríveis, por isso elas sobreviveram por tanto tempo. São o que os gregos chamavam de "mitos" no sentido original da palavra: contos tradicionais transmitidos de geração em geração, primeiro oralmente e depois de forma escrita.

Uma parte fundamental da genialidade do autor - ou quiçá dos autores - desses dois épicos foi a seletividade. Da grande quantidade de histórias tradicionais transmitidas oralmente ao longo de muitos séculos, que descrevem suas façanhas e aventuras de uma idade de ouro de heróis, Homero focou em apenas dois: Aquiles e Ulisses (também chamado de Odisseu).

Personagens Helena e Paris em série da BBC e NetflixDireito de imagemBBC/WILD MERCURY
Image captionHelena e Páris, segundo a versão da série de televisão "Troia, a queda de uma cidade", produzida pela BBC e Netflix

A Ilíada é realmente sobre a ira de Aquiles expressada e saciada por um duelo heroico com o campeão defensor de Troia, Heitor. A Odisseia narra as viagens e tribulações de Ulisses quando ele lutou por 10 anos para retornar de Troia ao seu reino natal de Ítaca.

Em primeiro lugar, o que Aquiles e Ulisses estavam fazendo em Troia? Homero não dá muitos detalhes, em parte porque era um tópico amplamente conhecido por seu público.

Mas há algo verídico em todas as histórias que ele conta? Houve realmente uma guerra de Troia como a descrita nas obras, ou pelo menos uma verdadeira guerra de Troia, ainda que diferente daquela descrita com tantos detalhes pelos poetas rotulados sob o nome de "Homero"?

Não demorou muito para que os críticos colocassem em dúvida uma das premissas fundamentais da história de Troia.

De acordo com o poeta greco-siciliano Estesícoro, que viveu no século 6 a.C., a rainha Helena de Esparta, que de acordo com a epopeia foi trazida para Troia por seu sequestrador, o príncipe Páris, na verdade, esteve no Egito durante a Guerra de Troia, e apenas uma imagem foi levada para Troia.

O historiador Heródoto, do século 5 a.C., tinha uma outra versão: Helena provavelmente não tinha sido sequestrada, mas ela teria deixado seu marido espartano, Menelau, para fugir com o amante troiano por escolha própria.

Essa teoria era escandalosa, mas pelo menos deixava intacta a autenticidade histórica da guerra. No entanto, foi isso que aconteceu?

Desastre arqueológico

Heinrich Schliemann, um rico empresário prussiano e ultramoderno do século 19 não tinha dúvidas. Ele acreditava que Homero não era apenas um grande poeta, mas também um grande historiador.

Para provar isso, ele decidiu escavar (ou pelo menos desenterrar) os sítios originais descritos na epopeia: Micenas, a capital do reino de Agamenon e, claro, Troia.

Região onde seria TroiaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionAlguns acreditam que Troia existiu no que é agora o noroeste da Turquia, mas as provas são inconclusivas

Para realizar sua busca, Schliemann seguiu as pistas deixadas pelos antigos gregos.

Infelizmente, em Hisarlik (hoje noroeste da Turquia), onde segundo a maioria dos especialistas teria sido Troia caso realmente tivesse existido, ele cometeu erros graves e causou um desastre arqueológico que precisa ser recuperado por cientistas americanos e alemães.

Ele escavou muito a área e - ainda que não haja dúvida de que este sítio, solidamente fortificado e com uma considerável cidade estendendo-se por baixo, foi de grande importância no período relevante (por volta do século 13 ao século 12 a.C.) -, os especialistas não conseguem definir qual das camadas escavadas pertence ao período homérico.

Isso ocorre porque há pouca ou nenhuma evidência arqueológica da presença grega no local e não há vestígios do ataque grego narrado por Homero, que supostamente durou dez anos.

Tudo isso é muito irritante para os mais céticos, que duvidam da veracidade fundamental de todo o mito da Guerra de Troia.

Catástrofes em série

Os gregos do pós-guerra de Troia tinham algum bom motivo para inventar e embelezar tal história?

Um estudo sócio-histórico comparativo do épico como um gênero de literatura comunitária indica duas coisas relevantes: primeiro, que sagas como a Ilíada pressupõem ruínas; e segundo, que na esfera sagrada da poesia épica, as derrotas podem ser transformadas em vitórias e as vitórias podem ser inventadas.

Templo restauradoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionHá evidências de que o mundo grego sofreu uma série de grandes catástrofes por volta de 1.200 aC.; isso poderia explicar a necessidade de criar mitos sobre uma "idade de ouro"

É um fato bem documentado que, em algum momento perto do ano de 1.200 a.C., o mundo antigo do Mediterrâneo grego oriental sofreu uma série de grandes catástrofes.

Essas calamidades incluíram a destruição física de cidades e cidadelas, seguidas por um grave despovoamento, migração em massa e uma quase total degradação cultural.

Não sabemos com certeza o que causou as catástrofes. No entanto, podemos identificar suas consequências negativas: econômicas, políticas, sociais e psicológicas.

Isso foi seguido por uma era de obscurantismo que perdurou em algumas áreas por até quatro séculos e terminou apenas com o renascimento no século 8 a.C..

Foi então que os gregos redescobriram a escrita, inventaram um novo alfabeto e reiniciaram o comércio com seus vizinhos orientais.

Só então a população aumentou notavelmente e se criou uma noção rudimentar de cidadania política. Os gregos começaram, então, a migrar do centro do Mar Egeu para pontos mais a leste e muito mais a oeste.

Aqui temos uma explicação para o impulso de criar ou fabricar o mito da Guerra de Troia: a necessidade urgente de postular uma era dourada "do passado", durante a qual os gregos poderia reunir uma força expedicionária de mais de 1.000 barcos, liderada por reis heróicos, que puniam uma cidade estrangeira que tinha se atrevido a roubar e se apegar a uma de suas mulheres mais importantes e icônicas.

Império Hitita

Enquanto isso, um dos grandes avanços científicos dos últimos tempos tem sido decifrar os textos cuneiformes e hieróglifos do império hitita, que cobriam grande parte da Ásia Menor até a época da suposta guerra de Troia.

Tanto os nomes dos lugares quanto os nomes próprios que misteriosamente parecem gregos foram encontrados nos registros hititas. Eles incluem o nome da cidade Wilusa, que quando pronunciada soa um pouco como 'Ilion' (o termo grego para Troia - daí 'Ilíada').

Área restaurada no Império HititaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionOs vestígios arqueológicos do Império Hitita não mostram evidência de uma guerra de Tróia

No entanto, apesar de todas essas semelhanças linguísticas (ou coincidências), os registros hititas que até agora foram descobertos e publicados não contêm nenhuma referência a qualquer coisa que se assemelhe a uma Guerra Homérica de Troia.

Da mesma forma, embora eles contenham indícios de que mulheres reais poderiam estar envolvidas em trocas diplomáticas entre as grandes potências do então Oriente Médio, uma Helena ou seu equivalente ainda não apareceu.

Há também razões para sermos céticos quanto à afirmação de que os épicos homéricos são documentos históricos e duvidar da idéia de que eles implicam antecedentes historicamente autênticos.

Um exemplo é o problema da escravidão. Ainda que a instituição e a importância da escravidão sejam reconhecidos nas epopeias homéricas, o autor ou autores não tinham absolutamente nenhuma ideia da dimensão da escravidão praticada nas grandes economias dos palácios micênicos dos séculos 14 ou 12 a.C..

 

Fonte: BBC Brasil

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