Gazeta de Amambaí


Quinta-Feira, 19 de Abril de 2018 às 09:02

As muitas dúvidas sobre o futuro de Cuba após os irmãos Castro

O barco mal era navegável e estava cheio de homens e equipamento. Durante sete dias e noites, a tripulação enfrentou ondas traiçoeiras, mas a embarcação começava a se encher de água.

Quase todos os homens à bordo passavam mal - tinham náuseas ou estavam fracos de fome ou sede.

Chegando com dois dias de atraso e ainda a quilômetros do ponto de encontro combinado, o barco ainda encalhou em uma espessa lama.

Tempos depois, Che Guevara diria que o suposto retorno triunfante da força revolucionária de Fidel Castro a solo cubano em dezembro de 1956 "não foi uma chegada, foi um naufrágio".

No final das contas, 82 homens saíram do navio Granma, enlameados e desanimados. E a coisa ficou ainda pior. Nos pés da Sierra Maestra, eles foram emboscados pelo Exército cubano e reduzidos a um punhado de guerrilheiros, entre eles Fidel Castro e seu irmão Raúl.

Fidel e Raul Castro em 1999
Image captionFidel passou comando do país para seu irmão e colega de luta armada, Raúl
Selo comemorando a viagem do GranmaDireito de imagemALEXANDRE MENEGHINI
Image captionSelo comemorando a viagem do Granma

Mas depois as coisas começaram a mudar, e, dois anos depois da chegada do navio, eles derrubaram o regime militar de Fulgencio Batista. Ao enfrentar 40 mil homens com armamentos muito superiores, eles se tornaram a guerrilha mais bem sucedida do século 20.

O mais impressionante, no entanto, é que tenham continuado no poder até hoje.

Juntos, os irmãos Castro passaram quase 60 anos como líderes da ilha. A marca que deixaram no país, transformado num Estado comunista de apenas um partido, é impossível de apagar.

No entanto, uma virada se aproxima. Depois da morte de Fidel Castro, no fim de 2016, será a vez de Raúl Castro deixar a Presidência do país. Cuba será governada por outra pessoa, que não um dos irmãos, pela primeira vez desde 1959.

Mas, depois de seis décadas, como é o país que eles passarão adiante?

Fidel e Raul chegam a Havana em 1959Direito de imagemREUTERS
Image captionFidel Castro acena para a multidão em Havana em janeiro de 1959 após derrubar governo de Fulgêncio Batista
BiranDireito de imagemKATIE HORWICH
Image captionPouco a pouco, fazenda de pai de Fidel em Birán se transformou num feudo típico da época: uma escola, uma armazém, uma madeireira, um bar, um ferreiro e cabanas rústicas para trabalhadores haitianos

Birán, a cidade da família Castro

Um ano após a morte de Fidel, morreria seu meio-irmão, Martín Castro, o mais velho, na mesma cidade em que eles nasceram, Birán.

Apesar de terem o mesmo pai e de terem brincado juntos quando crianças, suas vidas eram muito diferentes.

Fidel se tornou o fundador da Revolução Cubana, com Raúl a seu lado. Martín nunca saiu de casa.

Martin CastroDireito de imagemALEXANDRE MENEGHINI
Image captionApós a revolução, em 1959, Fidel ofereceu a Martín (na foto) a oportunidade de se mudar para Havana e trabalhar para o governo, mas ele a rejeitou.

Apesar de terem o mesmo pai e de terem brincado juntos quando crianças, suas vidas eram muito diferentes.

Fidel se tornou o fundador da Revolução Cubana, com Raúl a seu lado. Martín nunca saiu de casa.

Após a revolução, em 1959, Fidel ofereceu a Martín a oportunidade de se mudar para Havana e trabalhar para o governo, mas ele a rejeitou.

Martín dizia se sentir mais feliz entre seus animais e as plantações de cana-de-açúcar em sua cidade natal.

Foto de Martin Castro com RaulDireito de imagemALEXANDRE MENEGHINI
Image captionMartín Castro, irmão mais velho de Raúl e Fidel, nunca deixou região em que nasceu
Josefa Beatrix com foto de Martin CastroDireito de imagemALEXANDRE MENEGHINI
Image caption'Meu pai nunca estudou, mas era tão inteligente quanto eles', diz sobrinha de Fidel e Raúl

"Volta e meia me pergunto o que teria acontecido se papai tivesse se juntado a Fidel, mas ele nunca quis", diz sua filha Josefa Beatriz.

"Meu pai nunca estudou, mas era tão inteligente quanto eles", relembra, passando a mão sobre sua fotografia. A semelhança de Martín com os irmãos, especialmente Raúl, é impressionante.

A casa dos Castro, Finca Las Manacas, agora é um museu que serve de monumento às raízes rurais de Fidel e Raúl. O historiador da cidade, Antonio López, me guia pela propriedade.

Segundo ele, Birán foi erguida pela família Castro. O pai de Fidel, Ángel Castro, chegou a Cuba nos anos 1890 da Galícia, na Espanha, recrutado pelo Exército espanhol para defender o território durante a Guerra Hispano-Americana.

Quando voltou para a ilha, logo após sua independência em 1898, foi trabalhar nas minas e, em seguida, nas plantações de cana-de-açúcar da gigante americana United Fruit Company.

Casa da familia Castro em BiranDireito de imagemALEANDRE MENEGHINI
Image captionA casa dos Castro, Finca Las Manacas, agora é um museu que serve de monumento às raízes rurais de Fidel e Raúl

No início dos anos 1910, ele já havia comprado um terreno próximo a Camino Real, uma estrada lamacenta entre Santiago de Cuba e a Baía Nipe, na costa nordeste do país.

Pouco a pouco, a fazenda se transformou num feudo típico da época: uma escola, uma armazém, uma madeireira, um bar, um ferreiro e cabanas rústicas para trabalhadores haitianos.

Antonio me mostra a pequena sala de aula que Fidel frequentou antes de ser mandado para estudar com padres jesuítas em Santiago e em Havana.

Uma guia passa e repete a história oficial para os turistas, sobre como a pobreza dos cortadores de cana haitianos causou uma impressão duradoura em Fidel e em Raúl.

"Fidel disse uma vez que ficava feliz de ser o filho, e não o neto, de um dono de terras, já que ainda não havia ali uma cultura de privilégio", afirma Antonio.

Angel CastroDireito de imagemALEXANDRE MENEGHINI
Image captionÁngel Castro, que morreu em 1956, não viveria para ver seus filhos se tornarem os homens mais poderosos de Cuba

Ángel não viveria para ver seus filhos se tornarem os homens mais poderosos da ilha. Ele morreu em 1956 e está enterrado junto com a mãe de Fidel e Raúl, Lina, em Finca Las Manacas.

Mas para um dos filhos, a vida nunca mudou muito. Tomando um café em sua sala, Josefa Beatriz explica que seu pai, Martín Castro, deixou um terreno para os filhos, algumas cabeças de gado e a casa pequena, mas aconchegante, onde estamos.

Birán continua sendo um vilarejo tranquilo. Homens se reúnem na praça ao lado do mercado estatal, tomando rum depois de uma manhã no campo ou comprando sanduíches de presunto baratos na cafeteria, também subsidiada pelo governo.

A casa rudimentar de concreto de Martín, com uma pequena varanda na frente, era parte de um plano de Fidel para construir 400 casas para trabalhadores locais, que seriam bem diferentes das cabanas de madeira nas terras de seu pai.

Mas, no fim, só 218 das 400 foram terminadas.

Cafeteria em BiranDireito de imagemALEXANDRE MENEGHINI
Image captionHomens de Birán se reúnem na praça ao lado do mercado estatal, tomando rum depois de uma manhã no campo ou comprando sanduíches de presunto baratos na cafeteria, também subsidiada pelo governo
Quartel de MoncadaDireito de imagemKATIE HORWICH

Saúde e educação em Santiago

Na balsa para a pequena ilha de Cayo Granma, em Santiago de Cuba, o convés está cheio de caixas de coxas de frango congeladas vindas do Brasil, uma motocicleta está apoiada nas grades do barco e, nos bancos internos, um grupo de crianças estão gargalhando e gritando umas com as outras.

Poucos turistas se aventuram no pequeno vilarejo de pescadores, mas os moradores parecem preferir assim.

Ilha de Cayo GranmaDireito de imagemALEXANDRE MENEGHINI
Image captionPoucos turistas se aventuram no pequeno vilarejo da ilha de Cayo Granma

"Vão ter que pôr fogo em mim antes de me tirar dessa ilha", brinca Rosa Caridad Valverde, que viveu aqui durante toda a vida. "E quando apagarem o fogo, eu nado de volta para Cayo!"

Com quase 80 anos, ela sofre de pressão alta e veio até um posto de saúde ver sua médica e pegar uma receita para seus remédios.

Ela espera pela doutora Clara Luaces, que atende os pacientes no consultório impecavelmente limpo.

"Considerando o quanto essa ilha é afastada da cidade, temos todo o equipamento básico para tratar as pessoas", diz a médica, uma mulher de seus 50 anos que se orgulha de viver na própria comunidade. Ela diz que isso é parte do conceito de saúde primária em Cuba.

"Há 651 moradores aqui", diz, apontando para as casas de madeira e estanho que sobem o morro em direção à igreja.

Dra Clara LuacesDireito de imagem

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