Gazeta de Amambaí


Segunda-Feira, 04 de Junho de 2018 às 18:00

Deu ácaro em Ícaro

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Foto: Assessoria

Por Rogério Fernandes Lemes

Vice-Presidente da UBE-MS

O título acima é um empréstimo descarado de uma publicação da escritora gaúcha, radicada em Campo Grande (MS), Janet Zimmermann vencedora do Prêmio Guavira na categoria poesia. Não apenas acompanho suas publicações como também procuro extrair, ao máximo, o fio de Ariadne de sua poética.

A publicação de Janet não era exatamente como o título deste texto, mas esta: “E deu ácaro no ícaro sem asas”. Instantaneamente pensei nos milhares de exemplares de livros, Brasil a fora, mofando nas estantes, caixas úmidas e prateleiras empoeiradas, quando não, como suporte para escoro de toda natureza. É uma tristeza saber que os livros revelam ensinamentos e caminhos iluminados e são desmerecidos dessa forma.

Ao busílis então. O livro que está sob o mouse do meu computador, servindo a outro propósito, temporariamente, é de autoria do Professor Vasko, o cearense mais sergipano que já conheci. Seu livro, Busílis, publicado em 2015, é um esforço intelectual para presentear adolescentes e jovens. A lexicografia diz que busílis é o cerne da questão ou do problema. E qual seria o problema dos autores brasileiros?

Para muito além de pensar nas dificuldades econômicas na produção de um livro, existe a temida e desafiadora falta de leitores. Escrever um livro apenas para engrossar o mofo e alimentar os ácaros não cumpre a função social da produção do conhecimento. Não há lógica em destruirmos árvores para produzirmos livros para traças devorarem. Seria mais aceitável deixarmos as árvores para a produção de nosso oxigênio.

Confesso que ainda não sei, com precisão, a real intenção da autora, mas a associação à falta de leitores revela-se interessante em uma país que ainda lê pouco, se comparado a outras culturas. Cientes de que a falta de leitores é uma pedra no caminho dos autores, outro questionamento interessante é sobre o tipo de leitura preferido por boa parte dos brasileiros.

Levantamentos recentes apontam para os livros de autoajuda e religião. A partir de tal constatação, erraríamos menos se entendêssemos como uma curiosidade a respeito do suprassensível? Ou, ainda, uma busca consciente para superar a dor de ser humano?

Um verdadeiro labirinto são as certezas humanas sobre o desconhecido. Assim como Dédalo, pai de Ícaro, construímos condições favoráveis não apenas para entrarmos, mas, principalmente para sairmos dos labirintos da vida. Utilizamos, para tal, mapas corroídos, pelo tempo e pelas traças, com informações desencontradas e construídas, em grande parte, para nos manter estáticos.

Uma importante dica para a libertação das amarras de nossas certezas encontra-se nas inumeráveis páginas dos livros produzidos ao longo da história da humanidade. É necessário apenas motivação para apreciá-la, interpretá-la e aplicá-la a uma vida de contemplação e entendimento.

Tire as traças, espante os ácaros, leve seus livros preferidos para o banho de sol e ilumine-se com tamanha satisfação.

Mais do que um jogo de palavras, Ícaro realiza o sonho de voar para longe de sua prisão, o labirinto do Minotauro, assim como nós, de nossa finitude. Não voar perto do sol ou próximo ao mar foram as advertências que o jovem Ícaro ignorou. O desejo de se aproximar do sol foi fatal para sua queda no mar Egeu.

O voo de libertação da ignorância também requer advertências prudentes. Boas leituras, reflexões sobre aquilo que se lê, aplicabilidade no cotidiano são relevantes observações para quem deseja voar livre, leve e solto na imensidão do conhecimento.

Não serão asas de penas e cera ou as paredes deste mundo as responsáveis por nosso movimento limitado, mas a atenção aos ensinamentos duramente materializados nas páginas dos livros.

Duas coisas entendemos como extremamente cruéis: a não compreensão da condição humana e o banquete farto das traças.

Fonte: Assessoria

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